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À Ana C, aniversariante do dia

Viviana Ribeiro


Ana Cristina Cesar


I

Daí – a mão dobra a página do livro

Quando a mão dobra a página, há rastros de sangue no soalho

Pode ser o mar muito bem; mas pode ser as lágrimas do fotógrafo

Nesse meio tempo, faço tradução de Hite Report sobre sexualidade feminina.

Sabe alguém (mulher?) que queira traduzir comigo?

Já tenho ideia de escrever sobre Malditos escritores! E sua relação com a ideologia romântica-nacionalista-localista

E tenho alguma ideia sobre as mulheres de Almodóvar


II

Por que inventei de fazer esse curso e não outra bobagem qualquer?

Adoraria ser terapeuta ayurveda, mas adoro picanha

Já saquei a universidade: moderna, séria, marxista, feira de stands políticos, muitos guetos estrangeiros.

Quem não quiser não sai nunca de lá, e fica maluco, acho.

Falo espanhol o tempo todo.

Não dá mais para brincar de inglesa. É verdade, eu brinquei de inglesa na primeira semana.

Me orgulhava da minha desenvoltura e fazia a encenação do sotaque.

Tem uns ingleses que me convidam para o chá em casas maravilhosas de 500 anos e eu fico dura de tanto desempenho.

De vez em quando vou ao banheiro distender.

Gosto muito de supermercado, todos os produtos engraçados, mas acho que os ingleses não têm muito talento para a modernidade.

Daí a universidade ter um pino de menos.

Lá tem uma biblioteca horrível com elevadores que não param nunca.

E não há portas.

Você tem que saltar no seu andar com a ficha do Capital na mão – edição de 1926 – e na saída é tudo eletrônico.

Até 1920 era proibido o acesso das mulheres às bibliotecas.

Até 1920 era proibido o acesso das mulheres às bibliotecas.

Até 1920 era proibido.


III

Moro numa rua bacaninha, com casas & melancolia de outono.


IV

Tenho gana de falar de subjetividades.


V

Todos recomendavam o Manhattan do Wood Allen.


VI

Fiz sucesso, histericamente calma. Eu só devia ter mentido mais.

I hope I am not one of them, exclamei para o bando de homens almoçados.

Aqui tem papelarias do diabo. Compro apontadores de pura fascinação.

As próximas metas de consumo são o edredom e a bota de 7 léguas, claro.

Um dia fez um frio horrível, fiquei toda dura e jurei nunca mais meter saias.

A comida continua fraca, já vi que os ingleses gostam mesmo é de biscoitinho.


VII

A apostila que você queria era Foucault, What is an author?, depois peço para alguém que tenha ficado no curso – mas só vai pintar no ano que vem. Esse ano é só marxismo. Na 1ª semana eles ensinavam o que era modes of production, means of production, used value, exchange value, commodity. Tipo aula de inglês. Aprendi vocabulário.


VIII

A poesia quer é virar prosa; o ensaio quer virar poesia, e vacila quando fala de cadeira.


IX

A psicanálise não dá a menor conta da modernidade, coitada. Isso tudo tomando licores e chocolate, faz mal pra pele. Fico perplexa com aquelas pessoas que tem o consolo eterno das ciências psicológicas.

Não tem problema comer picanha. É só comer de vez em quando.

Come chocolates pequena, olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.

"O poeta é um fingidor", escreve Fernando Pessoa.

"A gente sempre acha que é Fernando Pessoa", escreve Ana


X

Eu estou a mil nesse assunto de mulher.

A Anaïs Nin dava umas conferências na Califórnia, ela diz que literatura de mulher é coisa de inconsciente, e que tem aquelas escritoras masculinas que dão aflição nela. Em Paris ela vivia para cima e para baixo com Henry Miller e o Lawrence Durell nos anos 30, com umas roupas e uma casa loucas, e depois foi pra Califórnia, publicou vários diários e fazia conferências com um fervor quase de pregador no púlpito sobre o inconsciente & a mulher, tem uma coisa que eu desconfio (explica demais, sabe como é?) mas eu leio.

Tem umas escritoras novas americanas muito incríveis, só falta combinar escrita (ou cinema, sei lá) de mulher com uma certa graça, um batom, um cacacá, está muito puxado pro triste.


XI

Namoro a rua, a cenografia e o batom.


XII

Pensei em virar artista plástica cafajeste, picotar meus livros, colar nuns papéis finos, botar no vidro e mandar para a bienal, o que você acha?

Eu fiz uma versão da minha história bem sem conteúdos para você.

Mas eu tenho tara por conteúdos, só a técnica é capaz de me salvar. Deleuze explica. EXISTEM SIM, mas não interessam, acho, só servem para eu ruminar de vez em quando um drama qualquer.


Revolution: it’s highly debatable


P.S. Minhas cartas são confidenciais.


#AnaCristinaCesar #poesia #poesiamarginal

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