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18/02: Aniversário de Toni Morrison

Viviana Ribeiro

Toni Morrison. Timothy Gree. Escritora negra.
Toni Morrison (1931-2019). Foto de Timothy Greenfield.

Angela Davis escreveu em “Mulheres, Classe e Raça” que a história da escravidão e da

luta da população negra pela liberdade nos Estados Unidos, sob a perspectiva das

mulheres escravizadas, ainda está para ser contada. Ali, esta luta teve a participação de

mulheres brancas inseridas na classe burguesa e mulheres da classe trabalhadora que

constituíram com as mulheres negras um comum, a partir (e em torno) da luta para

alteração de uma condição que não era exatamente a sua própria. Percebiam, porém, que

a luta pela libertação da população negra integrava, de alguma maneira, a luta pela

alteração das próprias injustiças – distintas – às quais estavam submetidas. A maioria

dessas mulheres brancas aprendeu a atuar na luta política aliando-se à causa da abolição

da escravidão. No entanto, este comum possível entre mulheres mostrou-se temporário,

uma vez que, durante o processo de luta, as mulheres negras apontavam para o nascente

movimento feminista estadunidense as suas fissuras, incongruências e limites, por

desconsiderar a condição racializada das mulheres negras nas suas especificidades e os

efeitos na constituição daquela sociedade.


É no centro dessa cisão das lutas feministas que a literatura combativa de Toni Morrison

se insere. Ao colocar-se como criadora de novas imagens das negras e negros na

literatura, Morrison combate os estereótipos superficiais e racistas reproduzidos pelo

pensamento hegemônico. A escritora dizia ser necessário mostrar o lugar dos negros na

fundação da América e criar imagens que trouxessem ao visível não só a beleza, mas

também a especificidade do olhar negro e feminino sobre a experiência africana no

Novo Mundo: daí a necessidade de contar a história da diáspora forçada e da luta pela

liberdade a partir da perspectiva das mulheres negras, como pensou Angela Davis. Suas

personagens, a maioria mulheres, são fragmentadas e estão em construção. O amor e a

liberdade são processos que precisam ser constituídos continuamente. A maternidade

envolve escolhas de vida e de morte, na qual a morte, muitas vezes, é expressão de amor

e afirmação da liberdade. A música, o som, o tambor e o ritmo presentes em suas

histórias são elementos de resistência: para espantar a dor, perturbar o silêncio,

redimensionar a vida e criar novos mundos possíveis.



Viviana Ribeiro é professora e cofundadora do IPIA – comunidade de pensamento. Doutoranda em Direito (PUC-Rio) e mestra em Filosofia (UFF). Graduada em Direito pelo IBMEC - RJ. Pesquisadora egressa do Grupo de Estudos Comparados de Literatura e Cultura (GECOMLIC/UFRJ), coordenado pelos prof. Dr. Eduardo Coutinho e prof.ª Dra. Monica Amim. Integrante do Grupo de Trabalho Deleuze da Associação Nacional de Pós-graduação em Filosofia (GT- Deleuze/ANPOF). Integrante do Ciclo de Leitura Espinosa, PUC-Rio.

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