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A Deusa de muitas faces

Julia Myara


Se sou senhora da luminosidade ou Face taciturna portadora da escuridão, Não se sabe. Apesar de ser reconhecida por carregar tocha na mão, Meus passos adentram firme Nos caminhos obscuros dos astros, Da terra de amplos seios, Sustento de mortais e imortais, Do Olimpo iluminado, Onde o senhor dos deuses e dos homens governa, Dos mares, tanto tempestuosos Quanto calmos e soberanos, E do próprio submundo, Onde auxilio aqueles que estão em jornada. Se sou bela e jovem, Protetora daqueles que desse modo são meus iguais, Me assemelho às matronas universais. Mas se também sou velha, terrível e sábia, Sento ao lado de rainhas e reis E lhes ofereço meu conselho valioso. Aquela que sabe, Protetora daquela que será a feiticeira Do bom conselho. Assim como ela, Desprezada pelos homens do futuro. Mas nunca usurpada. Meu rosto só transparece a infinidade do tempo E a permanência fluida de todas as coisas. Nem jovem, nem velha, nem bela, nem horrenda. Sou a face primeva dos poderes ancestrais. Nenhuma violência pode se abater sobre mim. A força se curva frente a potência da sabedoria. O porta égide, ele mesmo, Não ousou entrar no meu caminho. No meu não, nos meus, Pois são muitos e levam a todos os lugares. Força viril nenhuma Pode interferir nos meus domínios. Entre remédios que curam E venenos que matam, Sou reconhecida como a própria senhora Da vida e da morte. Da transição entre um e outro. Do entre que existe em tudo o que há. Se sou três, tríade, tripla, atravessada, É porque percorro todos os espaços E todos os atalhos, travessias e trilhas São meus. Rainha de lugar nenhum E ainda assim presente em todos os mundos Sou força protetora dos desajustados, Exilados, andarilhos e buscadores. Perca-se do domínio dos homens E você chegará até mim. Protejo as mulheres que honram nelas mesmas, Minha força primitiva, verde, crua e visceral. Se você me procurar, Pode me encontrar nas encruzilhadas e nos caldeirões. Eu posso estar diferente. Talvez com outro nome, Talvez em outro tempo. Já fui mãe primitiva, Senhora das feras, Amante de serpentes, Matrona do universo, e Estrelar, luminosa, Deusa, bruxa e feiticeira. Terrível e temível, Punidora venenosa, cascavel. Sou múltipla no interior da minha unidade fundamental. Hoje, você pode me chamar de Hécate.



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Arte com ilustração de Adrienne Rozzi, disponível no Poison Apple Printshop

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