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Pacto de aglomeração de autorias

Atualizado: há 4 dias

Pedro Alonso


Foto de Renato Mangolin para o espetáculo "Alcubierre"


Segundo as diretrizes formuladas pelo escritor e pesquisador Serge Doubrovsky, um texto autoficcional caracteriza-se pela “ficcionalização de fatos e acontecimentos absolutamente reais” envolvendo 'encontros, fios de palavras, aliterações, assonâncias, dissonâncias, escritas de antes ou de depois da literatura, concreta como se diz em música'" (DOUBROVSKY, 1977, p. 10 apud FIGUEIREDO, 2010, p. 92).


Nesse sentido, os atores e autores dos solos que escolhemos como objeto de análise, Alex Cassal, Fabricio Mosere e Carolina Virgüez, optaram, deliberadamente, por buscar parcerias que interferissem no modo de elaboração dos discursos apresentados ao público. Isso porque, diferentemente da literatura, o teatro é uma arte construída a várias mãos.


Comparados aos pressupostos de produção de escritas autobiográficas stricto sensu, cujas normas são regidas por uma “narrativa retrospectiva em prosa que alguém faz de sua própria existência, quando põe a ênfase principal em sua vida individual, em particular na história de sua personalidade” (LEJEUNE, 1971, p. 14 apud PAVIS, 2005, p. 374), pretendemos examinar como todos os criadores, envolvidos na ficha técnica dos espetáculos, construíram a memória no espaço da cena, espaço esse que pertence ao tempo presente.


Esse pacto de aglomeração de autorias reforça o tensionamento das esferas factual e ficcional, uma vez que “é preciso que o texto seja lido como romance e não como recapitulação histórica” (FIGUEIREDO, 2010, p. 92). Há uma declarada prática de construção cênico-dramatúrgica, que visa à contaminação dos fatos vividos, na esfera cotidiana, por jogos de inspiração subjetivos, que convivem caoticamente no espaço da imaginação do autor.


Referências:


FIGUEIREDO, Eurídice. Autoficção feminina: A mulher nua diante do espelho. Revista Criação & Crítica, São Paulo, n. 4, 2010. Disponível em: http://www.fflch.usp.br/dlm/criacaoecritica/dmdocuments/08CC_N4_EFigueiredo.pdf. Acessado em: 10 abril 2012.

PAVIS, Patrice. Dicionário de Teatro. São Paulo: Perspectiva, 2005.


Pedro Alonso é ator, performer e crítico de teatro. @criticoolhar



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