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Autoficções

Pedro Alonso


Foto do espetáculo "Alcubierre".

Em cena: Alex Cassal. Fotografias: Renato Mangolin e Sérgio Otero.


Ficção, realidade, memória, acúmulo de lembranças, invenção e reinvenção de verdades. Imagens que readquirem novas paletas de cores e ganham outros contornos. Confrontos entre passados que o instante presente do palco reaviva na atuação. Onde a imaginação trai o relato que se pretende fiel aos fatos? Qual o dispositivo que acionamos, na escritura textual e cênica, que revela e torna mais expressiva uma situação vivida, resgatada do fundo dos traumas, dos medos e alegrias de uma família? E quando delegamos a um outro indivíduo a missão de escrever sobre o Eu que está em cena e que quer falar sobre aquilo que mais a atordoa, sobre a descoberta de si num outro país, numa outra língua que não é a sua nativa?


A coluna "Autoficções" tem o caráter eminentemente teórico e visa à investigação de dramaturgias que tangenciam e fornecem elementos pertinentes à produção do gênero autoficcional no teatro.


Em "Alcubierre", texto escrito e encenado por Alex Cassal, o palco se transforma numa bolha metafórica, uma referência abstrata ao físico mexicano que dá nome a peça. Ali dentro, o adolescente tímido de Porto Alegre, aficionado por livros de ficção científica, se esbarra consigo próprio em outros passados, num vai e vem de tempo e espaço, que inclui ainda mais objetos, travessuras de infância, promissores casos amorosos etc. Nessa dramaturgia de interferências, a linguagem metateatral dá o tom da displicência e ironia com que ele se refere a si mesmo, no contexto de recriação da memória.


Em "Laura", Fabricio Moser, ao contar a história de sua avó, que fora assassinada no início da década de oitenta, se coloca na cena como personagem da última conversa que tivera com sua mãe, Verinha, presentificada, durante a encenação, através de um retrato. Temos aí o pretexto para realizar uma viagem em direção a interiores possíveis: o geográfico, a cidade de Cruz Alta, interior do Rio Grande do Sul, onde Fabrício foi buscar relatos, documentos e outras fontes para compor sua dramaturgia; e o emocional, em que coloca o pé na estrada para descobrir uma parte de si ao recriar a biografia de sua avó que não conheceu, que fora assassinada quando ele ainda era um bebê. As referências às cartas do tarô talvez estejam conectadas com essa analogia do partir em viagem, numa busca pelo que restou desse passado ainda nele.


Contrastando com textos escritos e encenados pelos próprios atores, vamos analisar um texto dramatúrgico que tem um efeito bastante parecido com o conceito de peça autoficcional."Susuné: conto de mulheres negras" possui autoria de Emanuel Aragão, solo deCarolina Virgüez. e direção de Antonio Karnewale. Trata-se de um solo em que se denota uma inquietação bastante peculiar da atriz na concepção e realização de um projeto autoral, no sentido de trazer, para o plano estético, elementos que entrelaçam à ficção (o texto de Aragão contém trechos de contos da escritora colombiana Amalialú Posso Figueroa) uma questão política bastante particular: reconhecer-se como índia num país que não se reconhece como negro.


Vamos viajar juntos nessa?


Pedro Alonso é ator, performer e crítico de teatro. @criticoolhar

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