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O sujeito narrado é um sujeito fictício

Atualizado: há 4 dias

Pedro Alonso

'Uma Igreja do Medo do Estranho em Mim': pulmão e medo radiografados no palco.

Fonte: Vilela, 2008.


A definição da pesquisadora Régine Robin sobre o que considera autoficção é bem categórica: ele afirma que “autoficção é ficção”. Logo em seguida, reitera: “O sujeito narrado é um sujeito fictício justamente porque é narrado, ou seja, é um ser de linguagem; assim, não pode haver adequação entre o autor, o narrador e o personagem, entre o sujeito do enunciado e o sujeito da enunciação, entre o sujeito em princípio pleno (o escritor) e o sujeito dividido, disperso, disseminado, da escrita” (apud FIGUEIREDO, 2010, p. 93).

Para o escritor Silviano Santiago, o embaralhamento da ficção com informações, dados pessoais, modos de vida, detecções de fala e descrições da vida real de quem se coloca como personagem, significa “relativizar o poder e os limites de ambas, significa também admitir outras perspectivas de trabalho para o escritor e oferecer-lhe outras facetas de percepção do objeto literário” (SANTIAGO, 2008, p. 174).


Alguns exemplos de espetáculos que tematizaram experiências autobiográficas e autoficcionais no teatro:


A atriz Janaína Leite e o músico e filósofo Felipe Teixeira Pinto transformaram, em linguagem estética, a experiência de comungar com familiares, amigos e público a decisão de terminarem um relacionamento. O espetáculo "Festa de Separação: Um Documentário Cênico"", concebido pelo ex-casal, compartilha, com a plateia, momentos pessoais de uma vida a dois que chegou ao fim. O espaço cênico foi invadido, segundo a análise das fontes, por projeções de momentos íntimos, cartas, bilhetes, recados, músicas preferidas, viagens realizadas e juras de amor, eternizadas por gravações em vídeo.


Na Argentina, a artista Viviana Tellas eclodiu no cenário teatral latino americano, na última década, com o conceito de "Biodrama", experiência estética que consistia em delegar, a um determinado diretor, a montagem de uma obra teatral, baseada em personagens reais vivos que residissem naquele país. Desde 2002, o palco do Teatro Sarmiento se transformou em espaço transitado por poéticas díspares, que partiam de uma mesma reflexão teórica central: o enfrentamento direto da “autoria teatral com a vida, a ficção e a realidade” (CONAGO, 2005, p. 3).


Em espetáculo que tematizava a descoberta de um câncer de pulmão, o diretor alemão Christoph Schlingensief, morto em decorrência do agravamento e complicações da doença, transformou esse período turbulento de sua vida em espetáculo chamado "Uma igreja do medo do estranho dentro de mim". A cena, segundo descrições da crítica alemã, reunia

“liturgias variadas, um coro gospel e referências a outras religiões e rituais sincréticos. Além de um filme em super 8 do diretor quando criança, rodado por seu próprio pai e um cenário em que as radiografias de seu pulmão [eram] expostas em grande formato (...) Faz[ia] parte, ainda, áudios gravados pelo próprio Schlingensief nos dias em que passou no hospital. O som ecoa[va] pelo espaço transformado em ‘igreja’” (VILELA, 2008).


Referências:

CONAGO, Oscar. Biodrama: Sobre el teatro de la vida y la vida del teatro. Latin american theatre review, Kansas, 2005.

FIGUEIREDO, Eurídice. Autoficção feminina: A mulher nua diante do espelho. Revista Criação & Crítica, São Paulo, n. 4, 2010. Disponível em: http://www.fflch.usp.br/…/dmdocumen…/08CC_N4_EFigueiredo.pdf. Acessado em: 10 abril 2012.

SANTIAGO, Silviano. Meditação sobre o ofício de criar. Aletria - Revista de Estudos de Literatura, v. 18, 2008.

VILELA, Soraia. Biografia em cena: Schlingensief leva a própria doença ao palco. Cultural, DW.com, 25 set. 2008. Disponível em: http://www.dw.de/dw/article/0,,3671092,00.html. Acessado em: 08 abril 2012


Pedro Alonso é ator, performer e crítico de teatro. @criticoolhar

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