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Autoficções

Pedro Alonso

Pedro Alonso, performance "carne", fotógrafa: Nayara Gerin, 2010


A arte é um campo privilegiado de acolhimento das subjetividades. Ela torna-se abrigo dos enjeitados que, por algum motivo, não se adequaram às regras, às normas, se impuseram contra o estabelecido.


A escrita autoficcional, autobiográfica, seja no suporte literário ou cênico, é sempre afetada. Dependendo de quem narra, esse afetação se mostrará mais ou menos visível. Ela possui um caráter de afirmação de ser, apenas ser, de muitos indivíduos que foram construindo suas referências ao longo de uma vida inteira se deparando com impedimentos.


As instituições, com suas forças repressoras, tentaram, de todas as formas, extirpar do organismo social, muitos desses sujeitos que, com muita sensibilidade, escreveram e reescreveram suas vidas, menos para falar de si, mas para chamar atenção para os dribles de sobrevivência que não a levaram a sucumbir à loucura ou ao desespero. Como essa memória será presentificada sob a luz dos palcos? Com que qualidade de definição? Ou não, será turva, apagada, cheia de hiatos, como sinal de algo que se recusa a vir a tona por diversos fatores?


Se não posso ser o que eu quero, nem como eu quero na vida, então me ressignifico no papel, com a liberdade que só a escrita me oferece. Prefiro pensar que, no cômputo geral, essas experiências sirvam para nos dizer: "olha, ainda estamos aqui, resistentes, vivendo uma vida que está nos esperando ali na próxima esquina, sempre à espreita, vigilantes".


Talvez seja essa a contribuição essencial que as práticas autoficcionais têm nos delegado na atualidade. Talvez seja uma das contribuições, porque nada é fechado. Nada é definitivo!


Pedro Alonso é ator, performer e crítico de teatro. @criticoolhar


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