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Benjamin leitor de Rilke: teor de verdade (Wahrheitsgehalt) no poema Torso Arcaico de Apolo

Yasmin Nigri

Analisando o poema Torso Arcaico de Apolo, de Rilke, mostrarei alguns indícios que parecem apontar para as origens do pensamento benjaminiano, que relaciona as noções de verdade, historicidade, desvio e ruína a este poema clássico de Rilke. Comecemos.


Benjamin nos ensina que a escrita crítica revolucionária é aquela capaz de multiplicar leitor e obra. Em seus textos de juventude, altamente especulativos e de difícil leitura, o autor toma a crítica romântica como ponto de partida para um novo modelo de crítica, tributário ao romantismo e ao mesmo tempo distinto. Para isto, o filósofo se contrapõe a uma noção de história e de atividade intelectual lineares e progressivas, em prol dos descaminhos de uma visada crítica poética.


O primeiro momento que me chamou a atenção para a relação aqui proposta entre Rilke e Benjamin foi a fala da professora Carla Damião no 9º GT de estética da Anpof, que ocorreu entre os dias 22 e 24 de maio de 2018 no IMS. Em seu artigo intitulado A aplicabilidade estética benjaminiana no Brasil, ela explora a relação entre o despertar da consciência história e a descontinuidade na forma de uma destruição criadora. Cito as palavras de Carla Damião:


Da destruição surgem igualmente os conceitos construtivos de “constelação” e de “mosaico”, bem como de ruína, de torso e outros, que supõem um indício da destruição e a permanência indicativa do que existiu e do que ainda vive sob a forma de negação. A impossibilidade de recompor a totalidade, ou a expressão da totalidade, torna a alegoria a expressão legítima em contrapartida ao símbolo; mas a oposição não encerra um binômio, encerra uma manifestação ainda possível do que poderia ser o simbólico em forma de ruína.

Este trecho me remeteu imediatamente ao poema Torso Arcaico de Apolo, de Rilke, onde o eu lírico contempla uma estátua antiga da qual resta na modernidade apenas um fragmento. Este pedaço que atravessou a antiguidade encanta profundamente o poeta: não por aquilo que ele vê, mas por aquilo que ele consegue vislumbrar nas sombras de um passado fulgurante em forma de torso.


Na tradução clássica de Manuel Bandeira, o poema diz o seguinte:


Não sabemos como era a cabeça, que falta,

de pupilas amadurecidas. Porém

o torso arde ainda como um candelabro e tem,

só que meio apagada, a luz do olhar, que salta


e brilha. Se não fosse assim, a curva rara

do peito não deslumbraria, nem achar

caminho poderia um sorriso e baixar

da anca suave ao centro onde o sexo se alteara.


Não fosse assim, seria essa estátua uma mera

pedra, um desfigurado mármore, e nem já

resplandecera mais como pele de fera.


Seus limites não transporia desmedida

como uma estrela; pois ali ponto não há

que não te mire. Força é mudares de vida.

Outro aspecto que também chamou a minha atenção foi a presença do Deus Apolo no poema, pois segundo o texto de Damião:


... a ideia de destruição em Benjamin parece ser bem expressa na composição paradoxal ou dialética desses extremos: ‘destruição/construção’ e ‘dionisíaco/apolíneo’ na remissão a Nietzsche e os princípios nomeados (...) A referência, contudo, vai além da tradição que Benjamin herda do pensamento alemão, para encontrar um estreito diálogo com Brecht, por meio do qual ele rompe com a pretensão de recompor a totalidade simbólica via destruição criadora.

A meu ver, a imagem do Deus Apolo como alegoria que representa a harmonia na destruição não remete a Nietzsche nem a Brecht, mas sim a Rilke, cujo poema termina com o inesperado verso “Du mußt dein Leben ändern”, que ao pé da letra significa “Tu deves mudar de vida”, imperativo inserido repentinamente, mas não por acaso, ao fim do poema, e que Benjamin parece incorporar de maneira indireta e inaugural na sua filosofia.


Para sedimentar minhas investigações, busquei referências dentro e fora das obras de Benjamin que pudessem explicitar uma influência direta do poema de Rilke nos escritos de juventude do autor, que escreve sua tese de doutoramento, O conceito de crítica de arte no romantismo alemão, entre 1917 e 1919, e sua tese de livre docência, Origem do drama trágico alemão, em 1925, que foi primeiramente rejeitada e posteriormente publicada em 1928. Estas, juntamente com os escritos sobre As afinidades eletivas de Goethe, de 1922, e Rua de Mão Única, sobre sua infância berlinense, de 1928, são algumas das obras em que notamos a ressonância do poema de Rilke e uma espécie de evolução dos conceito de ruína e fragmento, que se desdobram a partir da imagem do torso e que resultarão posteriormente no entrelaçamento desses conceitos às noções de despertar da consciência histórica e de verdade contidos nos fragmentos de Sobre o conceito de história, texto escrito em 1940, ano de sua morte.


Rilke e Benjamin se conhecem de fato em 1915, quando o filósofo se muda para Munique. No mesmo período ele conhece Gerschom Scholem, matemático, filósofo e historiador judeu-alemão, com quem estabeleceu uma relação estreita pelo resto de sua vida. Em livro que relata a história desta amizade, Scholem conta que, em 1918, numa conversa com Benjamin, este afirma — sem nenhuma reticência ou controvérsia — que Torso Arcaico de Apolo é um poema extraordinário.


Adorno cita, como podemos ver na página 132 de sua Teoria Estética, os versos “pois ali ponto não há / que não te mire”, presentes ao final do poema de Rilke, e lembra que estes eram muito admirados por Benjamin. A força de tal recordação se faz notar quando lembramos que a Teoria Estética é uma compilação de seus ensinos sobre estética que se deram ao longo das décadas de 1950 e 1960, muitos anos após o suicídio do amigo.


Dois dos mais importantes parceiros de Benjamin citam explicitamente a admiração do autor não só por Rilke como pelo poema em questão; ademais, a figura do torso é retomada em inúmeras obras do jovem autor. Considero esta passagem contida na obra Rua de Mão Única uma das mais emblemáticas:


Torso. Somente quem soubesse considerar o próprio passado como fruto da coação e da necessidade seria capaz de fazê-lo, em cada presente, valioso ao máximo para si. Pois aquilo que alguém viveu é, no melhor dos casos, comparável à bela figura a qual, em transportes, foram quebrados todos os membros, e que agora nada mais oferece a não ser o bloco precioso a partir do qual ele tem que esculpir a imagem de seu futuro.

Em Benjamin, o torso representa um passado não só incompleto como passível de modificação no presente. Desse modo, é possível criar horizontes para que novas formas de vida em germe no presente se concretizem no futuro. Para o filósofo, é dever da crítica assumir esse papel transformador, resgatando o pensar e o sentir apagados pela narrativa dos vencedores. Tal tarefa não se cumpre à maneira de um sistema filosófico, ou seja, com pretensões de universalidade, e sim mediada por um olhar poético onde o vagar e o recolher-se nos descaminhos das ruínas transformam-se em método. Dessa perspectiva nos aproximamos ainda mais do eu lírico do poema de Rilke.


Além disso, o torso também representa uma alegoria da modernidade, isto é, um tempo caracterizado pela ruptura com o passado, que se nos apresenta semelhante ao que foi sem contudo ser idêntico. Devido à constatação de que a descontinuidade só pode se dar a partir de novas configurações do passado, a contemplação estética da verdade na forma de fragmentos torna-se o meio ideal de encontrar possíveis saídas encerradas nas configurações de mundo pré-existentes.


Dessa maneira, concluímos que encontrar as formas revolucionárias engendradas no passado e que permanecem em germe é a tarefa crítica capaz de modificar a própria existência no presente. Tarefa ética, não custa salientar, visto que a precarização da vida resultou no recrudescimento dos sentidos e é de suma importância investirmos nossos esforços contra os discursos totalizantes e hegemônicos e o sequestro das subjetividades.


Como citar este artigo:


NIGRI, Yasmin. Benjamin leitor de Rilke: teor de verdade (Wahrheitsgehalt) no poema Torso Arcaico de Apolo. In: IPIA - Comunidade de Pensamento. Blog do IPIA. Rio de Janeiro, 3 mar. 2020. Disponível em: https://www.ipiacomunidade.com.br/post/benjamin-leitor-de-rilke-teor-de-verdade-wahrheitsgehalt-no-poema-torso-arcaico-de-apolo. Acesso em: 2 jul. 1986 [colocar a sua data de acesso ao texto].


YASMIN NIGRI é poeta, artista visual e crítica literária. Seu livro de estreia, Bigornas (Ed.34, 2018), foi finalista do prêmio Rio de Literatura 2019 na categoria poesia. Atualmente é pesquisadora do CNPQ e cursa o Doutorado em Filosofia na área de Estética e Filosofia da Arte na PUC-Rio. Mestra em Filosofia pela Universidade Federal Fluminense (UFF).


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