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Constelações - Parte 4

Kika Hamaoui


French Freedom (1984), de Eduardo Arroyo.

Então era isso, o mar estava incrivelmente lindo, límpido, mergulhei um tanto de vezes que era possível escapar, o sol, quando vinha na pele era um consolo nada esperado, apesar de lá, sempre lá, antes e depois de mim. Escrevi assim, de uma vez só, no papel molhado e sujo de areia, ela fumava um e escutava rindo, sorria devagar como nos filmes antigos, um amigo tinha se juntado a nós, tinha um ritmo lento como o poema e gostou, falou que tinha achado ótimo. Não acreditei. Estava com o olhar disperso, agradeci.

Todo mundo ali tinha alguma felicidade, ainda que mínima. Era isso, quase sempre há alguma. Enterrada na areia, atrás do mar, toda hora me passavam o beck, não queria, tinha medo dos pensamentos crescerem, dos monstros tomarem forma, o cheiro me enjoou, fui andar um pouco. Era bom sentir os pés grudando na areia, ser um pedaço da Terra no espaço, voltei atrás, aceitei o beck, dei um trago fundo, contei até três sem pensar, ri de novo, dessa vez quase escapando, ri e falei qualquer coisa como vocês acharam minha poesia uma merda, não acharam, eu sei que é, vou caminhar de novo e desandei em um riso, a areia funda, afundando tudo que havia em mim.

As cangas flutuantes, tapetes voadores, tudo estava grande e vazio, era possível correr, eu corria? Não sabia, não sabia se corria, se amava, quem amava, não sabia em qual corpo bebia, em qual folha perdida estariam minhas palavras, alguém me amava? Muito provavelmente a resposta era não e pela primeira vez não me importei.

Do Leme ao Pontal é mesmo uma distância colossal, não levava nada, sorri para uma série de desconhecidos como se eles soubessem, de tudo, claro, das dores, de tudo que eu deixava, pensei em pedir uma água de coco, esqueci, caminhei mais, sentei um instante, alguém me amava? Não ser amada traz em si algo de estrela, de vira-lata, aos poucos comecei a caminhar com passos da minha nova condição e não sabia o porquê, nem o sim, nem o não, mas o que se ama? O passado. Me veio assim a resposta. Se ama o passado.

A resposta não fazia sentido algum, assim como tudo. Olhei para trás, não encontrei a barraca. Era verde? Azul? Quanto eu tinha andado? Procurei com os olhos a estátua de Clarice, estava perdida. E me sentia imensamente livre.

Kika Hamaoui é autora e roteirista, formada em Filosofia pela Puc-Rio. Publicou os livros "Dois-Mundos de Antônia", "Replexidão", "Teus Navios são Tuas Coragens", "Do Medo do Tempo e outros rugidos" e a história em quadrinhos "Pérola". É roteirista da Rede Globo e atualmente escreve o programa "Zorra". @kikahamaoui



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