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Denúncia

Julia Loyola


Marta Oliveira desceu os degraus do tribunal, tentando controlar os passos. Esquerdo, direito, esquerdo, direito ela pensava, tentando copiar o ritmo das pessoas que passavam ao redor. Era uma segunda-feira, então a corte estava lotada de pessoas indo e vindo, muitos advogados voltando do intervalo com seus cafés na mão. Alguns, notou ela, estavam muito ocupados falando ao telefone enquanto equilibravam pastas e papéis pelos degraus de concreto, seus rostos tensos antecipando as dores de cabeça que estavam por vir. Outros, mais livres e com feições despreocupadas, aquela confiança de quem provavelmente acabara de ganhar um caso. Ela não ouvia sobre o que falavam. Talvez fosse algum assunto trivial, ou quem sabe sobre algum caso patético que acabaram de vencer, rindo do dinheiro fácil que estaria nas suas contas depois dali.

Suspirando a mulher pensou nos advogados do seu caso com seus cafés na mão, rindo e contando o quão patético fora o dela, ganho antes mesmo de ser julgado.

Sentiu o rosto ficar quente, e andou mais rápido. Passou por trabalhadores e suas famílias, todos com olhares carregados de preocupação. Um olhar que mascarava um sentimento de esperança, quase imperceptível para quem nunca esteve naquela situação, a um passo de uma decisão que poderia consertar sua vida ou piora lá 10 vezes mais.

Esperança essa de que desafiando todas as probabilidades eles sairiam vitoriosos. Esperança de conseguir o nunca feito antes. Esperança de que eles seriam a barreira que quebraria o círculo vicioso, os primeiros.

Ela também se sentira assim andando por aquelas escadas naquela manhã.

Olhando aquela cena, sentiu lágrimas brotarem nos olhos. Então sacudiu a cabeça, e percebeu de repente que estava quase correndo escada abaixo, num ímpeto de fugir.

Parou e respirou fundo. Não iria dar a eles a satisfação, mesmo que não estivessem ali para vê-la. Então se endireitou e continuo andando, rosto erguido. Quem olhasse pra ela iria ver uma mulher confiante, segura de suas decisões. Porém ela sabia que por dentro tudo que sentia era um embrulho na boca do estômago, bem provável que se ela se virasse rápido demais iria vomitar.

Bem, não foi por falta de aviso, pensou ela. Lembrando das semanas que precederam o julgamento.

Todos falaram para ela simplesmente deixar para lá.

Todos.

Tinha certeza que seus colegas de trabalho a chamavam de mentirosa pelas suas costas. Esse sendo o mais discreto, digamos, entre todos os nomes que a chamavam.

Mas o que realmente a deixara mais abalado foi a reação de sua própria mãe, quando ela ligou para comunicar a decisão já tomada de denunciar o caso.

Foi decepção que ela ouviu na sua voz, como se ela lamentasse não ter preparado a filha bem o suficiente para saber seu lugar no mundo.

Ingênua.

Era o que sentia os olhos do advogado dizer sempre que se encontravam. Embora ele tivesse mantido o mínimo de decência e não tivesse dito nada na sua cara, estava ali, no ar entre eles sempre que conversavam.

Longe nos seus pensamentos, ela ouviu de repente o som ao longe dos trens se aproximando. Tinha chegado na estação depois do que pareceu uma eternidade.

Respirou fundo mais uma vez, focada apenas em chegar à estação de trem da onde iria pra casa, finalmente longe dos olhares que pareciam a perseguir por todo canto.

Esquerdo, direito, passar pela catraca. Esquerdo, direito, chegar na plataforma

Esquerdo direito, entrar no trem e se sentar se tivesse sorte.

Foi com esse mantra que ela entrou no vagão, sentindo o copo pesado ao achar um lugar livre e se sentar. Logo estaria em casa. Logo.

Mas a verdade é que tinha medo. Porque ela sabia que quando chegasse em casa e toda a máscara que estava se forçando a mostrar caísse, o horror tomaria conta. Ela tentaria desesperadamente se agarrar ao que sentiu quando tomou a decisão de levar pra frente sua denúncia, mas a confiança estava longe e a esperança que sentiu era só uma lembrança, tão distante que não conseguia enxergar. Estava com todas as forças lutando contra o sentimento que estava preso na sua garganta, o que sua mãe e seu pai lhe avisaram que ela iria encontrar. A palavra presente nos conselhos de suas amigas, cautelosas. A palavra que ela tinha certeza que seus colegas de trabalho sussurravam quando ela passava. E a palavra que seu chefe (agora ex, um alívio e desespero) por 2 anos dizia de novo e de novo que ela iria sentir se resolvesse abrir a boca para alguém.

Arrependimento.

Todos os sábados o Blog do IPIA publica um texto de um membro da comunidade IPIA. Em nossa coluna de estreia, contamos com a contribuição de Julia Loyola.

Julia Loyola é graduanda em História da Arte pela UERJ. Participa do GE feminismo e política e tem como objetivo aprender cada vez mais, para assim pôr em prática. Apaixonada por histórias e em constante admiração do poder das palavras. Também pode ser vista no seu tempo livre maratonando desenhos e ouvindo musicais. A luta pela representatividade de todes é uma causa em que ela se identifica. É mulher, lgbtqia+, vegana e artista.

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