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Deusas, demônios, maçãs e serpentes

Atualizado: Set 23

por Julia Myara





Entender Deusas, demônios, maçãs e serpentes como epicentro da discussão sugerida, contorna a questão dentro da narrativa de criação do Gênesis, no qual encontramos a célebre passagem da tentação do fruto da árvore do conhecimento, que protagoniza a decaída Eva e a serpente corruptora, dando origem ao problema do mal.

A história é uma das mais famosas na literatura sagrada da nossa civilização: a humanidade, recém-criada pela divindade, habita pura, nua e ignorante o jardim encantado no Éden. Certo dia, Eva, a mulher do homem feito de terra, Adão, tem a sua atenção atraída pela serpente, animal inteligente, que seduz Eva com o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Eva se interessa, mas recua pois o fruto daquela árvore, interditado pelo criador, causaria a sua morte. A serpente esclarece a pobre criatura, e a informa que o criador mente, e que ela não morrerá se comer do fruto, mas se aproximará da condição do seu artesão divino. Eva, a mulher, acredita na serpente e come do fruto, seus olhos se abrem e ela percebe sua nudez. De fato, a serpente estava certa: Eva não morre. Nem Adão, diga-se de passagem, que, persuadido pela mulher, também come do fruto proibido. Ambos são expulsos do jardim encantado pela divindade enfurecida, que teme que essa humanidade devoradora de maçãs e frutos proibidos se aproprie do fruto da árvore de vida, e se torne como “nós”, diz essa divindade aparentemente se dirigindo a outros seres celestes, ou a sua natureza múltipla.

Porém, essa expulsão do paraíso perdido não é apenas uma ação pragmática. A expulsão é acompanhada por uma maldição proferida pela divindade. A serpente, animal terrível, será o mais odioso entre todos os animas, rastejará sobre a terra e comerá o pó todos os dias de sua vida. A mulher desejará o homem, que a dominará, e parirá com dor. Além disso, a amizade entre a mulher e a serpente também será amaldiçoada. Uma lhe ferirá o calcanhar, a outra lhe esmagará a cabeça com uma pedra. O homem, por sua vez, trabalhará para comer, da terra, sua mãe ancestral, será inimigo e retirará à força de muito suor o alimento precário. A mulher, a maçã e a serpente protagonizam, nessa narrativa, a origem do mal. O pecado original se dá através da amizade e confiança entre a mulher e a serpente. O homem, feito da terra, tem a relação amaldiçoada com a própria terra e dominará sua mulher, cujo corpo é análogo ao corpo da terra.

Símbolos como o fruto proibido ou os pomos encantados aparecem em diversas narrativas como um meio para a conquista de alguma qualidade, titularidade, status ou poder mágico. O pomo de ouro, lançando pela deusa da discórdia Éris no banquete de casamento de Peleu e Tétis, atribui a sua detentora o título de “mais bela” e as três Deusas gregas Atena, Afrodite e Hera competirão por ele, colocando em curso as engrenagens do destino que culminará na realização da ruína de Troia. A romã que a jovem e primaveril Core come no submundo a vincula permanentemente ao Deus Hades e seus domínios, tornando-a Perséfone, a rainha dos mortos, além de senhora das flores. Avalon, a ilha das maçãs, afunda a cada dia mais para dentro das brumas, mas talvez um andarilho ou andarilha sensível, ao sentir o cheiro das maçãs da Ilha sagrada, encontre pelo reino das fadas um caminho. O fruto proibido da árvore do conhecimento do Bem e do Mal, no jardim do Éden aproxima aquele que o consumir da condição divina. A maçã oferecida pela bruxa má no conto medieval da Branca de Neve mergulha a princesa exilada em um sono estranho como o de Orfeu, tornando-a morta em vida. Os pomos encantados permeiam as narrativas sagradas de todas as eras.

A serpente, por sua vez, também prefigura histórias importantes. Nós a conhecemos como animais perigosos e venenosos. Conhecemo-la por ser em parte responsável pelo decaimento da condição humana. Também como símbolo da medicina, veículo de uma substância de essência múltipla, que pode ser tanto remédio como veneno. As serpentes foram expulsas da Irlanda, terra que, aparentemente, nunca teve serpentes, por São Patrício. Os magos no deserto são conhecidos por encantar as serpentes. As feiticeiras e mulheres sinistras frequentemente são representadas junto de serpentes que enroscam seu corpo. A própria Lilith foi compreendida como um demônio fêmea de longos cabelos que se metamorfoseia em serpente. A serpente, além de tudo isso, é um dos símbolos mais antigos associados à antiga Deusa que era cultuada pelos povos agricultores, que remontam ao neolítico e aos primeiros assentamentos humanos. A serpente, símbolo da Deusa, representava a capacidade de se renovar, nascer e morrer, trocar de pele, sem deixar de ser o que é. A vida integrada na morte, o remédio do veneno, os ciclos da existência, assim como os ciclos da estação do ano, da lua, da terra, das plantas e árvores, e dos corpos, principalmente os femininos. A demonização da serpente significa, de muitas maneiras, a demonização do feminino na forma de corpo do planeta e dos corpos das mulheres.

Por sua vida corrompida e seduzida pela serpente, Eva, a mulher decaída e corruptora, torna-se a própria Lilith no imaginário medieval, primeira mulher, além de demônia e insubmissa. Totalmente desprovida de sua dignidade, a grande Deusa é amaldiçoada, torna-se hostil e eventualmente submetida a uma humanidade que um dia foi amiga e integrada. O homem, inimigo da terra, torna-se dominador da mulher. Os frutos de sabedoria são perigosos e exilam a humanidade da sua condição originária. A narrativa de expulsão do jardim do Éden dá início ao exílio da humanidade e da sua jornada nomádica e errática. A humanidade, tal como compreendida pelo antigo livro dos Hebreus, deixa a terra fértil em busca de uma terra que jorre leite e mel, também fértil. O Deus bíblico ressente-se da amizade entre a serpente e a mulher e parece ser, sozinho, o criador e gestor do universo.

De todo modo, uma leitura que sugere simplesmente que uma deidade tribal masculina se sobrepõe à grande Deusa e a substitui completamente, instaurando o domínio masculino tanto no âmbito espiritual como na vida cotidiana, não parece ser uma saída simples demais para a compreensão do fenômeno do patriarcado? Será que essa deidade não tinha uma consorte cósmica que, por diversos motivos, foi ocultada da narrativa sagrada escrita? No próximo texto da série exploraremos melhor essa questão e buscaremos entender se existiu uma Deusa hebraica.



Julia Myara é professora de Filosofia e cofundadora do IPIA comunidade de pensamento.

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