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Fazer poesia como se faz rock: Patti Smith

Atualizado: Jul 18

Viviana Ribeiro



Foto de Robert Mapplepherson, capa do álbum Horses.

Às minhas queridas Freedas Angelica Pizarro e Joana Camelier,

cheia de amor e saudades


Que tal ler ouvindo as músicas citadas nos livros "Só garotos" e "O ano do macaco", Patti Smith? Confira essa playlist feita pelo IPIA especialmente para o texto.

“Sam está morto. Meu irmão está morto. Meu marido está morto. Meu gato está morto. Meu cachorro que morreu em 1957 continua morto. E ainda assim eu continuo achando que alguma coisa maravilhosa está para acontecer. Quem sabe amanhã. Um amanhã e depois uma sucessão inteira de amanhãs”. Patti Smith, O ano do macaco.

A vida de uma leitora apaixonada é permeada por umas singularidades curiosas. Por exemplo: ter mais livros do que se pode ler numa vida inteirinha, mas cultivar a crença acirrada de que será possível ler tudo aquilo mesmo; desafiar a si mesma a só comprar um livro novo depois de ler, pelo menos, todos os livros de uma das prateleiras das estantes, fracassando miseravelmente sempre; carregar uma mala só de livros para todos os lugares que viaja, esquecendo de levar coisas básicas como biquínis ou calcinhas ou meias; nessa mala de livros também carregar mais livros do que poderá ler no tempo da viagem, mas quer ter opção de escolher o que ler; carregar os livros preferidos para todos os lados, só para se sentir em companhia dos seus; ler uma tetralogia de quase duas mil páginas quando precisa terminar uma tese e o prazo está se esgotando, mas precisa ler para descansar a mente e arejar os pensamentos; reler seus livros preferidos quando precisa acalmar o coração; presentear todas as amigas e amigos com os livros preferidos porque elas e eles precisam muito ler aquelas preciosidades; organizar a memória dos dias de acordo com os livros que está lendo nos momentos; comprar livros e guardá-los para lê-los em algum momento no futuro; se sentir amiga muito íntima das escritoras e escritores preferidos.

Minha relação com a Patti Smith foi assim: primeiro veio a imagem, depois veio a música e por último chegou a literatura. Sempre amei sua figura andrógina, muito marcada nos anos 1970/1980. Amo o jeito como ela dança e se movimenta no palco, como se compõe com o cenário, o microfone, os instrumentos, os músicos, o público. Meus amigos, especialmente os músicos, me mostraram, ao longo da vida, a Patti como uma grande artista feminista. Amo Horses, álbum lançado em 13 de dezembro de 1975, reverenciado em uníssono pela crítica como o álbum que revolucionou a história do punk-rock. Mas como não entendo de punk-rock acho que não compreendia de verdade o que era isso e qual era o tamanho disso, assim como também não entendia essa marca de uma grande artista feminista. Será que eles pensavam que basta ser uma mulher incrível ocupando um espaço majoritariamente masculinizado para alçar esse lugar de grande artista feminista? O fato é que meu grande encontro com Patti ainda não havia acontecido.

Cheguei na literatura da Patti por último. Acompanhei o frisson que foram os lançamentos de Só Garotos, em 2010 e Linha M, em 2016, mas torcia um pouco o nariz porque as críticas só sabiam dizer que estes livros eram grandes e poéticos livros autobiográficos. Já estava às voltas com o problema habitual do senso comum, da crítica e mesmo dos estudos especializados de psicologizar as obras literárias apequenando-as, reduzindo-as a uma esfera de interesse privado, tirando delas toda possibilidade de intervenção na espera pública do discurso e da vida, tirando delas toda potência inventiva de criação de novos modos de perceber, sentir e imaginar o mundo. Só Garotos e Linha M estavam na minha estante na modalidade dos livros que a gente compra e guarda para ler em algum momento no futuro. Quando comprei estava com a ideia de ministrar um curso de Escrita de mulheres: literatura anglo-americana (ministrarei, em algum momento no futuro). Ano passado, novo frisson. Patti veio ao Brasil em novembro de 2019 e a Editora Companhia das Letras coordenou com a sua vinda o lançamento de dois novos livros seus, Devoção e O ano do macaco. Porém, esses dois mereceram outro tom de análise pela crítica, talvez por exigência do tempo, embora também propagados como autobiográficos, a incidência política destes é ainda mais flagrante.

Devoção é um livro que trata, na verdade, de uma Patti pensando sobre a literatura e o processo criativo da escrita, portanto, um livro muito maior e mais amplo do que um relato íntimo, um esforço de pensar a função política fundamental que é aquela cumprida por todos que escrevem literatura. O ano do macaco foi escrito em 2016, ano em que Patti completou 70 anos, perdeu dois amigos de vida inteira, seu mentor, músico e produtor Sandy Pearlman e o escritor e dramaturgo Sam Shepard e ano de eleição de Trump nos EUA. Muito mais do que um livro autobiográfico, se trata de um livro sobre a passagem do tempo, sobre como a amizade expande o nosso mundo e é necessária para a fundação e a conservação de uma sociabilidade outra, capaz de fazer frente a dessociabilidade implacável do neoliberalismo e sobre como ainda pode ser possível achar que alguma coisa maravilhosa está para acontecer, quem sabe amanhã?, apesar de.

Em novembro de 2019, uma semana antes da chegada da Patti ao Brasil, eu, Angelica e Joana fizemos uma viagem só das Freedas à São Paulo. Viagem cheia de coisas divertidas e inesperadas. A pedido da Angelica, procuramos um ap com mais de um banheiro, para que todas ficássemos mais confortáveis. Ao chegar no lugar que alugamos, todas serelepes, descobrimos que tínhamos alugado não um ap com dois banheiros, mas um quarto numa casa coletiva e sim, com dois banheiros, mas compartilhados não só entre nós três, mas com várias outras pessoas que alugaram outros quartos da casa, além de várias regras esquisitas de utilização, rs. Em trânsito descobrimos que o Lula Livre se tornou real, a ordem de soltura foi emitida. No dia seguinte ele e os nossos estariam em grande festa em São Bernardo – opa Kairós, seu maravilhoso! - Evidentemente mudamos nossa programação de sábado para ir saudar nosso Presidente, em uma comunhão alegre, feliz e cheia de vitalidade, uma abertura de possível que há anos não vivíamos desde antes do golpe civil parlamentar de 2016 até hoje, com exceção do Ele não, ocorrido em setembro de 2018. Neste momento da viagem eu estava lendo Só Garotos e em São Paulo comprei O ano do macaco e Devoção, neste momento aconteceu meu grande encontro com a Patti.

Li Só Garotos, O ano do macaco, Devoção e Linha M numa toada só, com avidez, na euforia do encontro com aquele tipo de literatura e de gente que enquanto está acontecendo sabemos que é o tipo de encontro que muda a vida, ou seja, o encontro apaixonado. Só fui capaz de sentir e compreender exatamente o sentido dos enunciados Horses revolucionou a história do punk-rock e esta é uma artista feminista após ler Só Garotos. Seus livros, cujo teor autobiográfico é completamente irrelevante, nos mostram uma outra maneira de ver, perceber, sentir e se relacionar com o mundo, nos mostram uma outra lógica da percepção e uma outra lógica da relação, profundamente amorosas. A literatura de Patti Smith é uma literatura carregada de ternura embalada pelo frenesi das guitarras, quem lê sente o coração bater como se estivesse em um show de rock, assim como seu punk-rock é carregado de ferocidade terna e lírica, frutos de quem encontra na literatura e no rock os lugares de vitalidade necessários para a grande travessia da vida. É essa a grandeza da Patti, que atua na esfera pública, enquanto artista, sem abandonar a ternura que a acompanha em tudo que ela toca e aí está a sua verdade (basta ver o momento no qual Patti recebe o Prêmio Nobel de Literatura conferido a seu amigo de longa data, Bob Dylan, em 13 de dezembro de 2016, exatos 41 anos após o lançamento de Horses, em que ela erra a letra da música A Hard Rain's A-Gonna Fall de Dylan e pede desculpas porque está muito emocionada: https://cutt.ly/oaymzLH). Sinto-a como uma amiga íntima.

A viagem para São Paulo foi o momento do meu apaixonamento, do meu grande e profundo encontro com a Patti. Na minha memória afetiva, minhas amigas queridas, Angelica e Joana, num momento todo nosso, estiveram diante e fizeram parte, mesmo sem saber, da minha história de amor com a Patti. Por isso esse texto é dedicado a elas, porque para contar essa história, é preciso dizer que elas constituem esse acontecimento, o que torna tudo ainda mais especial e, de certa forma, isso aqui é uma carta de amor para Patti, mas para Angelica e Joana também. Uma carta cheia de saudade. Cacos de amor, Patti. Cacos de amor.



Viviana Ribeiro é professora e cofundadora do IPIA comunidade de pensamento. Doutoranda em Direito (PUC-Rio) e mestra em Filosofia (UFF).



Referências:

SMITH, Patti. Devoção. Tradução: Caetano Galindo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

______. Linha M. Tradução: Claudio Carina. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

______. O ano do macaco. Tradução: Camila von Holdefer. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

______. Só Garotos. Tradução: Alexandre Barbosa de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.



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