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Fedra e Afrodite

Atualizado: Jun 24

Julia Myara

Paulo Lacerda/Divulgação da Ópera "Fedra e Hipólito"

Sou bem conhecida nas esferas celestes, Entre os deuses eternos, vigorosos em suas paixões. E também na terra, devoradora de homens, Sou honrada, amada, exaltada Pelos mortais, que do Sol e sua luz gozam Vivos, vibrantes e insepultos. Àqueles que me horam e prestam culto, Eu exalto, os uso, abuso, me esbaldo Mas os que me negam, eu destruo Dizem que sou bela, rósea e solar Mas também sou obscura, furiosa, irada Sou Cipréia, mas sou Brimo É da minha natureza superior É imperativo amar a honra prestada Quando essa é verdadeira Mas também vingar o real desprezo. Em breve vou revelar a vocês a verdade: Do filho de Teseu, verme que ousa se dizer Filho Amazônico Insosso, inseto, insensível Casto autoproclamado Diz ser Eu uma deusa abominável Rejeita as núpcias, as companhias de leito E das mulheres, se enoja e se horroriza Pelas Fúrias, Erínias, vingativas O seu destino já está traçado. Honra somente Ártemis, irmã de Febo, Filha do porta Égide e acredita, coitado, Que por sua honra monogâmica e monoteísta Por ela é igualmente apreciado! Para ele, ela é a única e grande divindade E acredita fazer-lhe companhia nos bosques, nos lagos e perseguindo as suas feras sagradas Mas Ártemis é, como eu, face de uma mesma grande Mãe e desprezam a raça dos homens que Aspiram ser virtude onde só há vício Esses, aspiram mais do que a esse homem mortal Ridículo e condenado, é dado. Não o invejo, não o admiro, não o tolero Das ofensas dele e dos de sua raça Me vingarei, festejarei, farejarei Derramarei vinhos misturado com o melhor mel Em libação sagrada, sensual e sexual A mim mesma dedicada. E para isso possuirei, Como flecha, daimon, cabocla e pomba gira As minhas, as muitas, as belas Imagens que andam por aí, Nesta Terra de amplos seios espalhadas. Amam, e cantam, e dançam e gozam As muitas Afrodites, as muitas Helenas Mas Fedra é hoje minha sacerdotisa E atingida por mania, não doença Mas loucura divina, da carne dela me farei E no corpo dela serei, e de amor a mim a tomarei Ela e eu, como uma, somos uma. A nobre Fedra, de furioso, irado, telúrico amor Será tomada, arrebata, entusiasmada Pois Fedra estará cheia de Amor e da Deusa! Preenchida pela minha loucura divina E porque Amava amor que não estava Um templo a Afrodite se erguerá E todos os amantes, todos os tálamos, todas as camas e núpcias e tramas De nós recordará. E daqueles que lembram de Hipólito como o filho Casto, tenro, prodígio, perdido Do mesmo destino, às portas do reino de Perséfone se encontrarão Porque eu Sou aquela que é. A face cheia, madura lunar Da Senhora antiga e ancestral E nas minhas filhas e irmãs perdidas Eu me faço morada Templo, desejo e corpo e vida De mulher.


[Este texto é uma releitura da relação entre Afrodite e Fedra na peça Hipólito de Eurípedes]

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