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IVO VENEROTTI: O monumento antirracista Rumors of War

A disputa do imaginário e dos modos de percepção é uma disputa política. Por ser uma expressão espacial de impacto, causando identificação imediata com o povo negro, dedicando um lugar de altivez e destaque secularmente reservado aos brancos, Rumors of War é um poderoso monumento antirracista.


Casas em Richmond. Centro histórico. Richmond. Paisagem.
Casario da Monument Avenue, em Richmond, VA. Foto: Eridony (Instagram: eridony_prime).

Estátua racista. Richmond. Jeb Stuart Monument.
Foto: Hal Jespersen

Uma turista percorre a Monument Avenue, em Richmond, estado da Virgínia, nos Estados Unidos, em direção ao Museu de Belas Artes. Sob as copas das diversas árvores, em uma paisagem que mais parece um cenário, chamam a atenção algumas estátuas equestres posicionadas com destaque na avenida. “Coisa boa não deve ser”, pensa. Essa suspeita não é infundada: estátuas equestres glorificam membros da elite, frequentemente responsáveis por reprimir revoltas populares, quando não diretamente ligados a assassinatos de pobres, negros e indígenas. No caso específico de Richmond, estátuas assim são, via de regra, homenagens públicas a reconhecidos líderes escravistas. Estiveram à frente dos Confederados — agrupamento de estados do sul estadunidense, formado por radicais opositores do fim da escravidão. Esses homens aproveitaram o Ato de Emancipação, assinado por Abraham Lincoln em 1º de janeiro de 1863, como estopim para iniciarem uma guerra civil.


Arthur Ashe. Monumento. Monumento. Richmond.
Foto: Katherine Rivara

Bem, a caminhante prossegue em direção a seu destino e visualiza uma estátua diferente. É um homem, sim, mas não está a cavalo. Ele está de pé e segura uma raquete com uma das mãos; com a outra, braço estendido, apresenta um livro. Em letras grandes ela pode ler: “Arthur Ashe”. Ela pesquisa e se espanta: trata-se de um homem negro. O assombro se justifica: são raríssimas as homenagens públicas a pessoas negras. Arthur Ashe, fica sabendo, nasceu em Richmond e foi um tenista de imenso destaque, que colecionou vitórias significativas em sua carreira. Mais do que isso, Ashe utilizou seu lugar de visibilidade para denunciar a condição das pessoas negras (em sua terra e também noutros pontos do globo), como fez em seu posicionamento e nas suas ações contra o apartheid na África do Sul. Ele acreditava que os atletas, especialmente os negros, deveriam utilizar tudo o que fosse possível para “consertar as coisas que estavam erradas” (como disse em uma entrevista). Para ele, mais importante do que o esporte para a transformação social das pessoas negras, eram os estudos. Por isso o livro na estátua, acima de sua cabeça.


Rumors of War. Hehinde Wiley. Monumento. Richmond. Antirracismo.
Foto: Ryan K. Smith

A visitante vira a esquina na Arthur Ashe Boulevard, seguindo o seu rumo. Ela avista de longe, em frente ao museu, mais uma imensa estátua equestre. Bem, nada de muito diferente na paisagem. Quando finalmente chega ao seu destino, surpreende-se: não é um homem, branco, de meia-idade ou idoso, trajando farda. Mas um jovem, negro, calçando um tênis, vestindo moletom e jeans rasgado, ostentando um penteado dread. Fica encantada com os traços da escultura, a postura distinta e confiante do jovem sobre o cavalo. Acha curiosa a escolha da indumentária, bastante incomum para o tipo de homenagem. Admira a proporção do conjunto e o notável destaque da honraria. Só então procura saber quem é. Lança o olhar para o suporte de pedra, esperando encontrar o nome do retratado. Ao invés disso, depara-se com um título: “Rumors of War”.

Rumors of War.
Rumors of War. Foto: Travis Fullerton / Virginia Museum of Fine Arts

Rumores de guerra, em tradução livre, é uma obra do artista visual Kehinde Wiley, que rompe com a expectativa produzida pela imaginação ao se observar esculturas desse tipo. Como afirmou Wiley, “essa história começa quando eu vejo os monumentos dos Confederados. Qual é a sensação se você é negro e caminha por baixo disso?” [1]. Baseado na em outras histórias, silenciadas, o monumento desloca a percepção, criando outros possíveis. O cavaleiro monta o corcel com orgulho e determinação. "Este é um presente para Richmond, é um presente para o mundo. Esse cara [Kehinde Wiley] — ele conseguiu. Rumors of War. É incrível. Nike, dreadlocks, corte de cabelo, jeans rasgado, esse é o meu estilo" [2], disse o morador Rameek Gordon no evento de inauguração em dezembro de 2019.



Kehinde Wiley
Kehinde Wiley. Foto: Dimitrios Kambouris / Getty Images

Como artista visual, Wiley tem o seu trabalho como pintor bastante reconhecido. Ele afirma estar inserido na tradição dos retratistas, mas com o propósito de promover um desvio na retórica visual do heroico, do poderoso, do majestoso, borrando as fronteiras entre as formas de expressão consideradas tradicionais e as contemporâneas [3]. Rumors of War é, na verdade, uma série nessa concepção, que tem em seu ponto culminante a monumental estátua equestre de bronze - são 32 toneladas distribuídas em 8 metros de altura. Como afirma Alex Nyerges, diretor do Museu de Belas Artes de Virgínia, que comissionou a obra, “[Rumors of War] muda o diálogo sobre os monumentos, muda o diálogo sobre quem deve receber o privilégio e a honra da nobreza, do poderoso e do majestoso” [4].


A disputa do imaginário e dos modos de percepção é uma disputa política. Por ser uma expressão espacial de impacto, causando identificação imediata com o povo negro, dedicando um lugar de altivez e destaque secularmente reservado aos brancos, Rumors of War é um poderoso monumento antirracista.


Todavia, pela primeira vez, o herói é, também, vítima. Ele caiu na batalha do dia-a-dia, que tem num front os direitos básicos negados, e, noutro, a polícia, preparada para assassinar corpos indesejados. Os monumentos, então, devem ser parte de uma transformação social mais profunda. Aí, sim, podemos contemplar um outro futuro, assim como faz Monroe Harris Jr, diretor do conselho do museu: “Estou aqui de pé hoje, um descendente de escravos que ascendeu à sala da diretoria - os tempos vão mudar, os tempos vão mudar...” [5].


[1] https://www.vmfa.museum/about/rumors-of-war/

[2] https://vpm.org/news/articles/9099/making-new-histories-rumors-of-war-sculpture-unveiled-in-richmond

[3] https://kehindewiley.com/

[4] https://vpm.org/news/articles/9099/making-new-histories-rumors-of-war-sculpture-unveiled-in-richmond

[5] https://vpm.org/news/articles/9099/making-new-histories-rumors-of-war-sculpture-unveiled-in-richmond


Como citar esse texto:


VENEROTTI, Ivo. O monumento antirracista Rumors of War. In: IPIA - Comunidade de Pensamento. Blog do IPIA. Rio de Janeiro, 16 abril 2021. Disponível em: https://www.ipiacomunidade.com.br/post/ivo-venerotti-o-monumento-antirracista-rumors-of-war.

IVO VENEROTTI é professor e cofundador do IPIA - Comunidade de Pensamento. Doutor em Geografia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), por onde também é graduado em História. Pesquisa a atua principalmente nos seguintes temas: patrimônio, educação, memória, estudos urbanos. Professor colaborador do projeto de extensão Roteiros Geográficos do Rio, da UERJ.




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