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JULIA MYARA: Por que precisamos estudar as imagens arquetípicas das mulheres?

Por que precisamos estudar as imagens arquetípicas das mulheres, e o que esse estudo tem a ver com as opressões estruturais contra as mulheres?


Venus de Laussel. Mulher com corno.
Detalhe de Venus de Laussel. Encontra-se atualmente no Musée d'Aquitaine (Museu da Aquitânia) em Bordéus

“Alguns dos mitos mais conhecidos da Tradição da Deusa são versões patriarcais recentes que muitas vezes distorcem as lendas originárias das culturas matrifocais. Infelizmente, a maior parte dos livros de mitologia e história foi escrita por homens, baseados em antigos relatos masculinos, já que, durante os últimos três milênios, o acesso das mulheres à cultura e à expressão literária ou científica foi vetado” (Mirella Faur, O legado da Deusa).


Antes de tudo, é preciso perceber que, com a organização e a capilarização das pautas feministas, não apenas as ações políticas foram colocadas sob a luz da discussão de gênero, mas também a vida privada foi reconhecida como, no fim das contas, profundamente política. Mais do que uma politização da vida privada e uma privatização das questões públicas, podemos perceber que as opressões de gênero são antiquíssimas e estruturais, o que tem acarretado por parte das pesquisadoras uma transformação nas áreas da produção de conhecimento no pensamento filosófico, sociológico, político, e também nos estudos arqueológicos, mitológicos, psicológicos e linguísticos.


Na área da arqueologia, é possível observarmos artefatos e vestígios que sobreviveram dezenas de milhares de anos, e que nos levam a especular acerca de uma constituição social e comunitária entre homens e mulheres diferente da que se configurou na civilização patriarcal, da qual somos herdeiros involuntários. As antigas sociedade matrifocais não estavam, ao que tudo indica, posicionadas sobre práticas de dominação, acumulação e guerra.


Identificar o patriarcado como uma opressão estrutural é fundamental para compreendermos a profundidade das raízes da dominação social masculina. Em algum momento da história humana, de acordo com as circunstâncias de produção, clima, relação entre tribos, localização geográfica, entre outras, iniciaram-se processos por meio dos quais o homem se estabeleceu como agente social dominante dos corpos das crianças, das mulheres, dos não brancos e não europeus, dos corpos dos animais e do corpo da terra. O fetiche da dominação que se expressa em todas as esferas da vida pública e privada é resultado de uma cultura que se forjou sobre essas bases ideológicas, marcadas pelas ações violentas e brutalizantes.


Se a civilização patriarcal, que tem aproximadamente cinco mil anos, foi construída todo esse tempo dessa forma, como transformar essa civilização?


Um olhar para o passado histórico é fundamental para compreender esse processo. Ao longo do que chamamos tecnicamente de história (que coincide com o início da escrita — ou o que preservamos dos antigos textos) podemos perceber as diferentes representações arquetípicas das mulheres no curso do tempo. Frequentemente representando-as na forma de deusas, heroínas trágicas ou escritoras/poetas, as narrativas culturais veicularam imagens femininas que dizem mais respeito ao modo como cada sociedade entendeu as mulheres, seus papéis e seus lugares sociais, do que às mulheres em si. Acompanhar a viagem temporal de uma narrativa mitológica ou sagrada é acompanhar como cada povo, em cada tempo, se relacionava com as mulheres.


Estudar as origens da civilização patriarcal e a opressão das mulheres pela ótica dos textos produzidos por essa mesma cultura — e, muitas vezes, por homens — é uma tarefa um tanto árdua; ainda assim, é fundamental para a compreensão da nossa história. É árdua pois, como disse a filósofa Barbara Cassin (a respeito do estudo do movimento sofista), é preciso fazer uma paleontologia da perversão, é preciso estudar a nossa história justamente pelo olhar daqueles que nos dominaram e contaram a história. No entanto, essas imagens e ideias frequentemente pejorativas, formadas pela cultura patriarcal ao longo dos tempos, integram, ainda hoje, o imaginário social sobre as mulheres. As perguntas que se fazem a partir disso são: o que é uma mulher? Como ela se comporta? Como devemos nos portar? Como devemos nos relacionar com ela, conosco, umas com as outras?


A partir disso, estudar a formação das imagens arquetípicas que até hoje orientam a vida das mulheres na nossa cultura diz respeito a nós hoje, e conhecer outras estórias dessa história é fundamental para repensá-las, transformá-las e reapropriá-las.


Personagens como Medeia, Helena de Troia, Cassandra, Lilith, Eva, Inanna, entre outras, não são meramente criações idealizadas de beleza, maldade, loucura etc. Essas mulheres, deusas e demônios, encarnam imagens socialmente construídas do feminino, e expressam o psiquismo da cultura que as forjou ou interpretou. Ainda em nossa cultura essas figuras estão presentes. Uma mulher que se desfaz de uma relação e expressa sua ira acerca das injustiças sofridas é comparada a Medeia, “vingativa, louca, com olhar de leoa que pariu”.


Uma mulher sexualmente emancipada, que toma vários amantes, não só é bela como a “bela Helena de Tróia”, mas também compartilha com a rainha espartana a fama de “prostituta, rameira desavergonhada, cadela”. Mulheres sedutoras frequentemente são chamadas de sereias, monstruosidade feminina que permeia diversas culturas, ora na forma de peixe, ora na de pássaro, e que desmembram e devoram os homens. Mulheres que tentam fazer ouvir suas vozes, que se apresentam firmemente na esfera pública, comportam-se, dizem, como “Cassandra, a louca!”, alucinando um protagonismo social que nunca poderiam ter, sonhando “o sonho de Cassandra”. A titulação honrosa de “estrela da manhã e da noite”, de antigas deusas como Inanna, Ishtar, Ashterah, Afrodite e Vênus, tornou-se a titulação do anjo caído na narrativa cristã, Lúcifer, o demônio.


Porém, as imagens arquetípicas das mulheres na produção textual e de pensamento dessas culturas não é unificada, e frequentemente também não é dogmática. Existem muitas brechas nas narrativas, muitas versões diferentes. Poetas e escritoras que escreveram sobre mulheres, deusas e heroínas, dão voz à história das mulheres a partir da perspectiva das mulheres. Estudar a formação das imagens arquetípicas que até hoje orientam a vida das mulheres na nossa cultura é fundamental para repensá-las, transformá-las e reapropriá-las.


Frequentemente, minhas alunas e alunos perguntam: Sempre foi assim? Será que sempre fomos oprimidas, desde a mais remota antiguidade? Esse questionamento, também meu, me levou a estudar arqueologia e entender o protagonismo feminino naquilo que a nossa cultura chama de pré-história, mas o que a antropóloga Marija Gimbutas chama de “A civilização da Deusa”. Se a história do patriarcado tem 5000 anos, temos notícias de culturas pré-histórias possivelmente matriarcais que datam de ate 40000 a.e.c (antes de era comum). Se o patriarcado tem 5000, a civilização da deusa tem 40000.


Estudar a civilização da Deusa, além de se inteirar de uma possível expressão espiritual que nos acompanha desde o paleolítico, é, fundamentalmente, entender que outros modos de vida são possíveis, que são muito interessantes, e que temos muito o que aprender com eles para a nossa vida privada, a vida política, a construção comum da sociedade e para a reorientação do nosso psiquismo para um modo de vida não violento, não dominador e não patriarcal.


Se você quiser entender melhor as imagens arquetípicas das mulheres — e o que esse estudo tem a ver com as opressões estruturais contra as mulheres —, o curso Deusas Infernais vai atravessar as narrativas míticas e sagradas dos povos sumério, celta, egípcio, grego, hebreu e fenício, investigando o aspecto sombrio e infernal dessas divindades, suas múltiplas representações, as culturas que as forjaram, suas práticas sociais e políticas, sua orientação psíquica e, acima de tudo, como essas histórias nos dizem respeito hoje.


Como citar este texto:

MYARA, Julia. Por que precisamos estudas as imagens arquetípicas das mulheres? In: IPIA - Comunidade de Pensamento. Blog do IPIA. Rio de Janeiro, 27 abril 2021. Disponível em: https://www.ipiacomunidade.com.br/post/julia-myara-por-que-precisamos-estudar-as-imagens-arquetípicas-das-mulheres.


JULIA MYARA é professora e cofundadora do IPIA — Comunidade de Pensamento. Também é doutoranda em História da Filosofia Antiga na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), mestra em Filosofia Antiga na PUC-RIO, graduada em Filosofia pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) e professora da Pós-graduação Lato sensu em Filosofia Antiga (CCE, PUC-RIO). Atualmente realiza estudos na área de filosofia antiga e do pensamento de Platão, narrativas de pós-morte e catábases e mitologia com ênfase nas figuras femininas nas narrativas sagradas sumérias, gregas e bíblicas. Desenvolve pesquisa nas áreas de estudo de gênero na antiguidade, religiões, narrativas míticas comparadas e retórica.



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