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JULIA SCHMIDT: A primeira autoria, por uma sacerdotisa

E deitada sobre os estudos dos povos mesopotâmicos e de seus escritos literários, deparo-me com a primeira autoria do mundo: Enheduanna — a primeira pessoa que assinou um texto — era uma mulher. A primeira poeta de nome reconhecido era, além de tudo, uma sacerdotisa de Inanna.


Ao estudar a Mesopotâmia não estamos apenas presenciando os testemunhos de um grande culto que homens e mulheres faziam a Inanna. Estamos, também, diante da história da escrita, descobrindo hinos líricos, sexuais, religiosos, muito anteriores à poesia grega que tanto marcou a nossa visão ocidental.


E deitada sobre os estudos dos povos mesopotâmicos e de seus escritos literários, deparo-me com a primeira autoria do mundo: Enheduanna — a primeira pessoa que assinou um texto — era uma mulher. A primeira poeta de nome reconhecido era, além de tudo, uma sacerdotisa de Inanna.


Enheduanna, filha de Sargão, o primeiro rei do império acádio, foi figura central no governo de seu pai, garantindo a articulação política por meio de sua gerência dos templos. Em sua época à frente dos templos e do cuidado religioso, enfrentou e desarticulou rebeliões que ameaçavam o império de seu pai (viu-se, contudo, banida, por um certo período, de sua função política e religiosa). A sacerdotisa de Inanna, em seu tempo, foi uma das pessoas mais influentes da cultura mesopotâmica.


O nome que recebe na cultura suméria, e pelo qual a conhecemos, significa "Sacerdotisa ornamentada do céu". Seu sacerdócio estava primeiramente ligado ao deus lunar, Nana, pois era costume que as filhas dos reis se tornassem esposas de Nana. Mas seria a sua relação com Inanna que marcaria de maneira extraordinariamente intensa sua devoção e sua vida.


Da Acádia para a Suméria, Enheduanna se viu diante da grandiosa Inanna e ficou arrebatada com a presença dessa deusa. Seus ciclos de hinos dedicados a ela mostram não só algo novo, como a assinatura de uma poeta, mas também uma relação entre divindade e humano não registrada anteriormente até então.


Enheduanna era apaixonada por Inanna. Entre ela e a deusa não havia mediação, não havia musa que cantasse por ela, ou arauto que traduzisse as mensagens. Ela falava e escrevia diretamente para a deidade. Seus poemas são, assim, marcados pelos fatos de sua vida que ela associa à deusa, reconhecendo que Inanna é na mesma medida um dragão, uma vaca impetuosa e a soberana de todas as essências.


Ao lermos os versos de Enheduanna, podemos ver uma sacerdotisa que arde de amor, paixão, devoção e é amiúde capturada pelo olhar arrebatador da Senhora detentora de todos os decretos.


Como citar este texto:


SCHMIDT, Julia. A primeira autoria, por uma sacerdotisa. In: IPIA - Comunidade de Pensamento. Blog do IPIA. Rio de Janeiro, 4 mar. 2021. Disponível em: https://www.ipiacomunidade.com.br/post/julia-schmidt-a-primeira-autoria-por-uma-sacerdotisa. Acesso em: 21 mar. 1991. [Colocar a sua data de acesso].


JULIA SCHMIDT é professora de Língua Portuguesa. Também é mestre em Linguística com foco em Análise do Discurso pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), graduada em Letras - Português e Alemão pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Atua principalmente nos seguintes temas: linguística aplicada, análise do discurso, sexualidade, feminismo e gênero. Desenvolve atualmente estudos ligados à astrologia, botânica, perfumaria e mitologia.

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