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JULIA SCHMIDT: Inanna e o sexo sagrado

Atualizado: Mar 27


Rainha da Noite

O sexo como um sacerdócio


A deusa Inanna, senhora do sexo, do amor, da guerra, da fertilidade e da sedução, é aquela que nem mesmo mais de cem amantes seriam capazes de saciar. Por milênios inspirou poetas em hinos líricos, eróticos, passionais. Inanna era dona de inúmeros amantes e consortes, padroeira da cerveja e dos amantes; a melhor forma de celebrá-la era gozando. Literalmente.


A expressão “prostituição sagrada”, anacrônica e complexa, que nos soa hoje como um paradoxo, era, para povos da Antiguidade, uma redundância. Que façamos nesse momento, então, uma abstração: estamos falando de um período em que não havia a cisão entre corpo, mente e espírito, e algumas questões políticas e de gênero eram outras. Mais adequado seria dizer “o sacerdócio do sexo”, pois se trata de uma prática religiosa nos templos dessa deusa. A prostituta era uma sacerdotisa, instruída nos mistérios da divindade mais cultuada da Mesopotâmia.


Por que praticar o sexo em um templo? Porque a fertilidade era considerada sagrada e vital para a sobrevivência humana. Ritualizar uma deidade como Inanna significava compreender o sexo como inerente a tudo o que é da ordem do divino, do natural, do social e coletivo, do necessário e imprescindível. Ora, era por intermédio dessa deusa que a fecundidade da terra e de homens e mulheres era assegurada. Se o júbilo divino estava na fertilização, “rezar”, nesse contexto, não poderia ser de outra maneira. Aqui o sexo é a hóstia do templo do amor, e um benefício do qual toda uma comunidade poderia usufruir, devido ao ser caráter sagrado, político, agricultor. O sexo era, portanto, um ritual.


Esses rituais eram induzidos por meio de aromas como o da mirra, do tomilho, do almíscar. Perfumes sacerdotais de cunho sexual tinham como matéria-prima não só as ervas, como também glândulas sexuais de animais. O sexo se dava em um profundo contato visceral com a natureza. Através da fumaça perfumada das plantas, os corpos recebiam estímulos que aumentavam o sensorial. A sensualidade é um gesto sacro, porque aflora os nossos sentidos, nos sintoniza com o etéreo e extraordinário divino.


O Ano Novo era a grande festividade do sexo, e durava dias e noites, noites e dias. O ponto alto dessa celebração era o que chamamos hoje de hieros gamos, o casamento sagrado, em que uma sacerdotisa personificada da deusa unia-se sexualmente com o monarca regente. Essa libidinosa comunhão sustentava, para os mesopotâmicos, a fertilidade de homens, mulheres, plantas e animais, e fazia do rei um rei.


Nesse ritual, além de perfumes, música e cerveja, poetas cantavam a musa divina que tanto os inspirava e a razão da reunião profana de todos e todas que ali se encontravam. Nos Cilindros de Gudea (3000 a.C.) encontramos versos que entoavam esse momento célebre:


Quando para o touro selvagem, para o senhor, eu me tiver banhado,

Quando para o pastor Dumuzi, eu me tiver banhado

(...)

Quando o senhor, deitado ao lado da santa Inanna, o pastor Dumuzi,

Com leite e creme o colo tiver sido amaciado....,

Quando sobre minha vulva suas mãos ele tiver pousado.

Quando, como seu barco negro, ele tiver ...,

Quando, como seu barco estreito, ele tiver trazido vida a ela,

Quando sobre o leito ele me tiver acariciado,

Então acariciarei meu senhor, um doce destino escolherei para ele.


E, assim, a prática sacerdotal do sexo significava celebrar a grande deusa que lhes oferecia os grãos, as frutas, o vinho, a cerveja, a vida.


Como citar este texto:


SCHMIDT, Julia. Inanna e o sexo sagrado. In: IPIA - Comunidade de Pensamento. Blog do IPIA. Rio de Janeiro, 26 mar. 2021. Disponível em: https://www.ipiacomunidade.com.br/post/julia-schmidt-inanna-e-o-sexo-sagrado.

JULIA SCHMIDT é professora de Língua Portuguesa. Também é mestre em Linguística com foco em Análise do Discurso pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), graduada em Letras - Português e Alemão pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Atua principalmente nos seguintes temas: linguística aplicada, análise do discurso, sexualidade, feminismo e gênero. Desenvolve atualmente estudos ligados à astrologia, botânica, perfumaria e mitologia.

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