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Língua de mulher

Julia Myara



Lá, lê, língua ferina, astuta afiada.

Lê a língua como se lê a palma da mão.

Como se fossem pontas dos dedos, pontas da língua que leem a carne fendada, arrepiada, amordaçada.

Lê a língua de quem grita, lê.

As nossas línguas querem cantar, querem gritar em fúria e festejar.

Língua finca no fundo da nuca.

Lê as palavras da luta.

Essa língua vocês só querem morder, mas nós não vamos silenciar.

Nossa voz é grito? Vocês dizem!

Então vamos estourar seus tímpanos.

Se nossa voz é aguda, esgarçada, esganiçada, eles dizem.

Fica tranquila, não há desgraça.

Nossos ouvindo estão e são – sempre foram, faca afiada, sensibilizada.

Para ouvir o grito de dor, o grito da festa, o ruido arfante e o som do cuidado, o canto ingênuo e o suar da testa.

Língua fala, língua grita, sem pudor.

Fala alto, rápido, ríspido, amoroso, enrolado ou articulado.

Mas fala língua, grita!

Toca a ponta dos lábios, o céu da boca queimado, os dentes extraviados.

Toca tudo, toca todos.

Fala para os ouvidos abertos e enfrenta os fechados.

Lá, lê, lé, fala língua de mulher.



Créditos da imagem:


Fotografia e make artística: Elis Paula @nosvozelis

Modelo: Erika Mahya @mahya.arte

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