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O reflexo – Parte 1

Kika Hamaoui



À Beira-mar, de Salvador Dalí

Eduardo comia com pressa, parecia inquieto, agitado. Ao mesmo tempo, falava com calma, com alguma estranheza, sua fala não acompanhava o ritmo do corpo. Cheguei cerca de vinte minutos antes e todo o nervosismo que havia me acompanhado deu lugar a uma série de lembranças que magicamente me remetiam a suas mesquinharias, imperfeições. Todas as ações que se deixa passar, que se releva porque não há força, ou tempo, porque carregamos as mesmas ou maiores estranhezas. Me lembrei de um dia simples, uma viagem à praia, subi para buscar uma canga que enquanto Eduardo esperava no carro. Quando voltei, ele tinha fechado a cara, demorei demais, ele disse, respondia vagamente as minhas perguntas, me ignorava. Passei a viagem inteira olhando pela janela, em silêncio, imaginando como seria minha vida com antigos namorados, homens que havia recusado por já estar com Eduardo, pensando quantas vezes ele também já não tinha se questionada se havia tomado a decisão certa ao se casar comigo. Escorreram algumas lágrimas que escondi com os óculos e mesmo se não o tivesse feito, ele não as perceberia. Quando chegamos na praia, o mar estava calmo, limpo, mergulhamos, nadei de uma ponta a outra e depois almoçamos, tomamos algumas cervejas e vimos o sol se pôr, como se o dia fosse lindo.


Ele estava bem, os cabelos mais claros, a pele bronzeada, de vez em quando interrompia a conversa para mexer no celular, um hábito provavelmente recém adquirido, um vício. Os assuntos sobravam e evaporavam na mesma medida, perguntei como estava a agencia, ele foi vago, retribuiu a pergunta, queria saber em que pé andava a minha pesquisa. Não respondi, não via sentido em jogar palavras soltas que mal eram ouvidas.


- Vou pedir um café, você quer? – Perguntei.


- Não, estou tentando diminuir a cafeína. – Respondeu decidido.


- Bela decisão. Transformadora, eu diria. - Falei enquanto fazia um sinal para o garçom.


A amizade, ou a tentativa dela, estava truncada, beirava a educação e a falta de intimidade. Uma intimidade que existia, mas devia ser dosada, a busca de um amor fraterno, descompromissado.


- Tem ido à praia? – Perguntei.


- Estou caminhando todo dia. Ás vezes vou até Copacabana e dou um mergulho.


- Sinto falta de Botafogo. Vamos pedir a conta? – Propus.


Ele pagou, fez questão. Nos despedimos com um pequeno abraço e ele seguiu andando, observei aquele homem, não era mais meu, já havia sido? Cheguei em casa e faltava pouco para as quatro. Procurei um biquíni, chamei um carro, corri até a praia. Deu tempo de um último mergulho antes que escurecesse. Fazia tempo que não sentia a corrente salgada do mar, sua agressividade libertadora. Consegui enxergar o sol que se inclinava, atrás de mim um hippie ou um maluco batia palmas.

Kika Hamaoui é autora e roteirista, formada em Filosofia pela Puc-Rio. Publicou os livros "Dois-Mundos de Antônia", "Replexidão", "Teus Navios são Tuas Coragens", "Do Medo do Tempo e outros rugidos" e a história em quadrinhos "Pérola". É roteirista da Rede Globo e atualmente escreve o programa "Zorra". @kikahamaoui


Confira os textos anteriores dessa sequência:

Uma tentativa - Parte 1

Uma tentativa - Parte 2

Uma tentativa - Parte 3

Uma tentativa - Parte 4


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