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O reflexo - Parte 2

Kika Hamaoui


Milo Manara

A água do mar me refrescou. Senti o sal nos lábios, o cabelo pesado, os pés livres pela areia. A noite tinha chegado, dava para ouvir. Repentinamente as vozes se tornaram soltas, como se estivessem durante todo o dia em uma forma onde era necessário um polimento, um tom comedido, qualquer orientação vocal que formava certezas. Ouvi as pessoas com seus rostos dispersos, segurando cervejas, sentindo o cheiro da maresia que muda quando anoitece. Um vento passeou pela minha pele e senti um frio bom. Perto do quiosque me arrumei, coloquei um vestido confortável e bonito, daqueles que se usa quando se quer parecer despretensiosa, e, de fato, não tinha qualquer pretensão. Calcei os chinelos ainda sujos de areia, o Leme é mesmo um bairro lindo, uma família tomava cerveja enquanto as crianças giravam em volta da mesa e eles riam como se fosse feriado. Lá em cima as pessoas se agitavam, os quiosques estavam cheios, olhei para o celular, nenhuma ligação, nenhuma mensagem, ninguém me procurava, é possível que, naquele instante, ninguém sequer pensasse em mim, minha existência era qualquer coisa como despercebida. Decidi subir.


Clarice Lispector estava lá com seu cachorrinho. Era hoje uma estátua. Eu, ao contrário, parecia mais com o vento. De uma liberdade assustadora. Um cara montava um equipamento, algumas pessoas se agitavam em volta, diziam coisas que não faziam sentido, andavam de um lado para o outro com calma, cheias de certezas, agitando coisas que eu não via.


Peguei uma cerveja. Fiquei de pé, olhando a praia iluminada. Quantas viagens recém-chegadas habitavam aqueles hotéis, quantas pessoas se espantavam com a orla e quantas outras caminhavam sem perceber nada de ilustre. Eu percebia. Um filme, uma foto, as horas tinham uma tonalidade que não conhecia. Já fazia tempo que tinha almoçado com Eduardo, a presença dele me doía vez em quando, outras vezes, me escapava, como se nunca tivesse existido, um capítulo distante, uma farsa.


O hippie que batia palmas, se me visse agora, diria que só o presente importa. E eu detesto ter que admitir isso, mas talvez ele esteja certo. As luzes se acenderam e a cidade parecia linda quando a música começou a tocar.


Kika Hamaoui é autora e roteirista, formada em Filosofia pela Puc-Rio. Publicou os livros "Dois-Mundos de Antônia", "Replexidão", "Teus Navios são Tuas Coragens", "Do Medo do Tempo e outros rugidos" e a história em quadrinhos "Pérola". É roteirista da Rede Globo e atualmente escreve o programa "Zorra". @kikahamaoui

Às vezes o amor simplesmente acaba. E aí, é preciso um reencontro - com os amigos, coma a família, com a cidade. Consigo.

Confira a história de Luiza na sequência escrita por Kika Hamaoui.


Uma tentativa - Parte 1

Uma tentativa - Parte 2

Uma tentativa - Parte 3

Uma tentativa - Parte 4

O Reflexo - Parte 1

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