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O reflexo - Parte 3

Kika Hamaoui


O concerto no ovo, de Bosch

Já estava na terceira cerveja quando um menino descabelado veio falar comigo.


- Luiza?! Não acredito que você tá aqui!


Seus cabelos em caracóis loiros voavam e ele tentava impedir com uma mão, enquanto segurava a lata de cerveja na outra. Parecia feliz e surpreso ao me ver, sua aparência era extremamente jovem, um garoto, completamente diferente da idade que carregava dentro de mim.


- Tá curtindo o som?


- Desculpa, a gente se conhece?


- Que isso, Luiza! Sou eu, Diego!


Foi só quando ele falou o nome que lembrei, fomos extremamente amigos na faculdade. Fumávamos maconha, bebíamos litros de cerveja com nossos amigos, altas viagens. Me dei conta de que nada daquilo corria mais em mim, diferente dele, que seguiu apenas uma linha lógica, sem um corte bruto, sem desvios. Eu havia me tornado adulta, com problemas, dores, questões. Era uma mulher recém-separada, preocupada, muitas vezes triste e cheia de cobranças. Ele fazia frente para o vento, sorria, usava uma regata larga, era possível ver uma confortável barriga de cerveja. Levantei e rapidamente lhe dei um abraço.


- Digão! Quanto tempo!


Agarrei ele com uma intimidade que ele tinha esquecido, sequer me lembrava se os abraços furtivos faziam parte do nosso código de afeto, ele retribui incerto, estava suado, falava mais alto do que o necessário que era para escutar. Quando desfazemos o abraço, perguntou:


- Caramba! Quanto tempo! Como você está?


- Estou bem. Tudo bem. Tudo ótimo.


- Pô, tô ali com uns amigos. Não quer ir lá conhecer?


Era um grupo de pessoas descoladas, arrumadas na medida para um evento pós-praia. Passavam um baseado de um para o outro, sopravam a fumaça em uma longa viagem. Me receberiam bem, alguns dançavam. Poderia me dar bem com o garoto de dreads, parecia gringo, uma energia boa. Beberia com eles outras cervejas, depois algo mais forte, depois relembrar os tempos de faculdade, beijar alguém sem querer, trocar contato, dar um tapa no baseado e ver o sol nascer. Voltar para casa um pouco feliz, levemente exausta, dormir, acordar animada para outra, sair com o menino de dreads, assistir um filme, conhecer a casa de um deles, viajar para o mato. Tudo parecia tátil, delicioso. Mas eu estava cansada.


- Digão, vou ficar por aqui.


Ele se juntou ao grupo, todos balançavam, a música passou a acompanhá-los. Terminei a cerveja e desci. Caminhei pela orla até o Leme se perder de vista.


Kika Hamaoui é autora e roteirista, formada em Filosofia pela Puc-Rio. Publicou os livros "Dois-Mundos de Antônia", "Replexidão", "Teus Navios são Tuas Coragens", "Do Medo do Tempo e outros rugidos" e a história em quadrinhos "Pérola". É roteirista da Rede Globo e atualmente escreve o programa "Zorra". @kikahamaoui


Às vezes o amor simplesmente acaba. E aí, é preciso um reencontro - com os amigos, coma a família, com a cidade. Consigo.

Confira a história de Luiza na sequência escrita por Kika Hamaoui.

Uma tentativa - Parte 1

Uma tentativa - Parte 2

Uma tentativa - Parte 3

Uma tentativa - Parte 4

O reflexo - Parte 1

O reflexo - Parte 2


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