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O reflexo - Parte 5

Kika Hamaoui

Eleven AM (1926), de Edward Hopper

Caminhei pelo bairro e não vi beleza, toda paisagem parecia desconfortável, os letreiros não soavam gentis, forçava a vista para entendê-los. Não havia hostilidade, me olhavam de volta com a mesma estranheza, fazer um pacto de naturalidade leva tempo, conversava com um vizinho ou outro, coisas rápidas, sutis, mas algo não emplacava, como um idioma recém aprendido que falta significado. Ainda tinha roupas na minha mala, vez ou outra a encarava como um estranho, cabia nela um eu antigo, risadas que não me vestiam mais. Tinha a garrafinha de vodka que comprei em uma viagem quando jovem e beber ainda era novidade. Nunca abri a garrafa, era pequena, vermelha, carregava em si uma alegria que escapou de mim, assim, sem ver, junto dos ponteiros.

O tempo se tornava um bicho cansado, olhava no espelho e as olheiras me assustavam, tinha emagrecido, os ossos das saboneteiras saltavam. Deixava a TV ligada o dia inteiro, sem interrupção, sentia falta de compartilhar desejos básicos, como viagens, jantares, assistir um filme. Sentia falta de abraçar Eduardo, de sentir seu cheiro, de sair junto de casa, acompanhar seu passo rápido. Agora eu andava em um ritmo confuso, esbarrava nas antiguidades do shopping chão, o olhar de baixo para cima, as mãos de bonecas, os cds arranhados, quem compra? Ninguém se perguntava.

Eu perguntava tudo, em um diálogo interno incessante. Perguntava, buscava resposta e acabava esquecendo a pergunta. Dormia de um lado para o outro, ás vezes acordava e me perguntava que lugar era aquele. O sol nascendo, é verdade, trazia algum conforto, alguma verdade, o sol nasce e ponto, na contrapartida da madrugada conseguia dormir.

Por que nunca abri a garrafa? Era difícil dizer. A etiqueta ainda marcava uma moeda estrangeira, chegando nas cidades era sempre tudo tão novo, um pequeno café, um supermercado, uma padaria, lembro do meu coração pulsante, das minhas lágrimas de alegria, tantas e tantas vezes que era impossível responder a tudo isso lá, sozinha. O que tinha dentro de mim era um salto, um precipício, me confundia nos dias, acordava, muitas vezes, pronta para uma rotina que não era minha. Levantei em um pulo, o céu já estava lilás ou laranja, lembrei dos dias em que acordava cedo para viajar e quando se assiste o dia nascendo do avião, lá de cima tudo é gigante, até as vontades. Olhei o rótulo, abri a garrafa, o cheiro lembrava muita coisa que eu não sabia dizer, tomei de um só gole, espantei a madrugada e coloquei um Rock até o dia nascer.

Kika Hamaoui é autora e roteirista, formada em Filosofia pela Puc-Rio. Publicou os livros "Dois-Mundos de Antônia", "Replexidão", "Teus Navios são Tuas Coragens", "Do Medo do Tempo e outros rugidos" e a história em quadrinhos "Pérola". É roteirista da Rede Globo e atualmente escreve o programa "Zorra". @kikahamaoui

Às vezes o amor simplesmente acaba. E aí, é preciso um reencontro - com os amigos, coma a família, com a cidade. Consigo.

Confira a história de Luiza na sequência escrita por Kika Hamaoui.

Uma tentativa - Parte 1

Uma tentativa - Parte 2

Uma tentativa - Parte 3

Uma tentativa - Parte 4

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