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O reflexo - Parte 6

Kika Hamaoui


Destaque de "El abrazo de amor de El Universo, la tierra (México), Yo, Diego y el señor Xólotl", de Frida Kahlo

Por alguns dias vivenciei uma lua de mel com minha presença, se não tivesse o amor, e se não tivesse o sofrer, acompanhava a música, organizei um cardápio razoável de receitas para o almoço, sonhei com amores antigos, onde estariam? A maioria eu tinha perdido contato, devia estar lá em algum canto das minhas mensagens, lembrei de momentos bons que vivi com outras pessoas. Amar como amava Eduardo era impossível, o amor assim completo, como barreira, ninguém alcançou, mas me diverti, vivi diferentes paixões por quase todos os bairros do Rio de Janeiro, algumas me devastaram, claro, outras ficaram em um canto bom, na praia, nos arcos, em florestas que me fugiam o caminho, mas lá estavam.

Hidratei o cabelo, terminei de organizar as roupas que estavam jogadas dentro da mala, preparei refeições para a semana inteira, limpei a casa, o banheiro estava arrumado com toalhas novas, bonitas, sabonetes um pouco mais caros do que os de costume. Consegui sair para caminhar de manhã, fiz alguns exercícios dentro de casa. Algo, ou quase tudo, se organizava dentro de mim.

Me voltei para dentro do apartamento, a vida lá fora parecia distante, os bares funcionavam, recebia convites para algumas festas, lançamentos, mas seguia quase insistentemente em uma rotina que havia inventado. Me preparava para algo e não me preocupava saber para que. Para o dia que se seguia, para o inverno, para um amor distante, uma conquista, me preparava para saltar de abismos, mergulhos infinitos, batalhas imaginárias. Aos poucos comecei a acordar e dormir no mesmo horário, assim mesmo, automaticamente, fazia o café, exercícios, trabalhava na minha pesquisa e olhava fixamente para um ponto imaginário que me mantinha de pé.

Percebi que não colocava a voz para fora fazia algum tempo, havia mergulhado em um silêncio de vozes e pensamentos, encontrei uma praticidade, uma autonomia que desconhecia. Se quebrava algo ou queimava uma lâmpada, resolvia imediatamente. Fui ganhando traços que estranhava, mas aceitava como se aceita um novo inquilino.

Não havia impaciência, a casa havia se tornado para mim uma espécie de criança quieta, não por personalidade, mas por disciplina. Exigia cuidados, mas respondia bem as minhas orientações. Troquei o silêncio pela música, aprendi a focar na escrita com maior totalidade, mas algo me tirou do eixo. Tentava manter a linha que havia construído ignorando qualquer tipo de ruído, uma peneira extremamente fina filtrava notícias, barulhos, novidades. Mas insistia. Duas, três, quatro vezes. Parei a escrita e só então me dei conta, era a campainha que estava tocando.

Kika Hamaoui é autora e roteirista, formada em Filosofia pela Puc-Rio. Publicou os livros "Dois-Mundos de Antônia", "Replexidão", "Teus Navios são Tuas Coragens", "Do Medo do Tempo e outros rugidos" e a história em quadrinhos "Pérola". É roteirista da Rede Globo e atualmente escreve o programa "Zorra". @kikahamaoui


Às vezes o amor simplesmente acaba. E aí, é preciso um reencontro - com os amigos, coma a família, com a cidade. Consigo.

Confira a história de Luiza na sequência escrita por Kika Hamaoui.

Uma tentativa - Parte 1

Uma tentativa - Parte 2

Uma tentativa - Parte 3

Uma tentativa - Parte 4

O reflexo - Parte 1

O reflexo - Parte 2

O reflexo - Parte 3

O reflexo - Parte 4

O reflexo - Parte 5

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