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O trampolim - Parte 2

Kika Hamaoui

"Acima da cidade" (1918), de Marc Chagall

Meus passos haviam mudado, no sentido mais cru da palavra. Por muito tempo caminhei saltitante, ao lado de Eduardo. Com a delicadeza e a suspensão do amor, há sempre um ombro, um braço para se apoiar. Há sempre um sim ou um não que se escuta. E depois, nada se ouve. Como o silêncio depois da morte. O resto é silêncio, se diz assim, não diz? Se disse em Hamlet e se escuta sempre. Aos poucos fui deixando a luz acesa, colocando os pés inteiros no chão, calcanhar, peito, dedos, tudo tocava a terra. Ou o chão da festa, claro.

Por ora, não me desejava. Me aceitava quase como uma criatura variável, mítica, uma figura que se gosta de ter por perto, que despeja verdades difíceis e conclusões inesperadas. Não via detalhes, questionava. Meu espaço como mulher, como gente que toca no outro estava atordoado, era uma pluma que havia enfim encontrado o chão ou ainda flutuava? Devo ter ficado algum tempo olhando para o espelho, a pele parecia mais árida, funda, quanto de corpo eu tinha deixado? Quanto de corpo, de festa, viria?

Ninguém esbarrou em mim, mas ouvi um grito, desandei em olhar e era nada, uma gargalhada à toa.

- Parou de beber?

Perguntou um homem forte, forte no tom, na palavra, um desses homens que fazem maquiagem perfeitamente bem, que traduzem mensagens em adereço, parecia solteiro que nem eu e parecia não se interessar por nenhum dos caras da festa, que nem eu. Mas caminhava perfeitamente bem sendo ele mesmo o próprio interesse e ao falar comigo, ao me ver assim, como alguém que sabe o que faz, me deixou feliz.

- Até pretendo. Um dia. Por hoje, continuo bebendo. – Respondi antes de o acompanhar até a cozinha.


Kika Hamaoui é autora e roteirista, formada em Filosofia pela Puc-Rio. Publicou os livros "Dois-Mundos de Antônia", "Replexidão", "Teus Navios são Tuas Coragens", "Do Medo do Tempo e outros rugidos" e a história em quadrinhos "Pérola". É roteirista da Rede Globo e atualmente escreve o programa "Zorra". @kikahamaoui

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