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O trampolim - Primeira parte

Kika Hamaoui


"Feira da Santa Cruz em Figueras", de Salvador Dalí

- Escrever é isso. Se escreve para ninguém e ponto. Não há porque a escrita ser qualquer coisa além de uma grande confissão, de modo que o público é sim uma verdade, é sim necessário, mas sua necessidade vem do desejo. Desejo que o outro leia e por isso escrevo. Desejo que o outro descubra e por isso escrevo. Desejo o outro e por isso. Escrever ou não escrever não deve ser uma questão e sim um ato contínuo, ao que se anda, se respira, se bebe um copo d'água, se chora por amor uma vida inteira e se escreve. O mundo faz parte, claro. Assim como meu corpo, mas não sei se o mundo existe quando não escrevo. O mundo como matéria, evidentemente, existe. Ou pelo menos, é que o penso. Todo mundo pensa, não é? Mas o que quero dizer é que para mim o mundo não é mundo se não posso escrevê-lo. Vocês entendem agora? Desde do momento em que acordo e decido sentir dor de cabeça ou esperança, até o momento em que sopro minha vida em um instante, tudo é escrita. O homem que caminha até a lotérica, a mulher que grita no bar que foi trocada por outra e que foi trocada por outra pior do que ela, não sou eu que devo concordar, a escrita não depende da minha aprovação e muito menos da minha reprovação, ela é o que é. É o que escuto e o que leio da escuta, vocês entendem? Pode soar ultrapassado, mas escrevo com a dor do parto, com a festa da paixão, com a certeza da morte. Só é possível escrever completamente. Ou isso ou nada.

Eles concordavam, era ou isso ou eu não pararia de falar, mas sentia que gostavam, sentia que algo além lhes prendia a atenção. Uma menina, mais jovem uns oito anos do que eu escutava atenta, de cabelo curto como o meu já foi um dia, tinha uma compreensão afoita, mas compreendia, gostava, insistia. Eu respondia porque gostava da companhia, naquele momento despedia atenção a quem passasse e mesmo que a intenção jamais tenha sido o discurso, ele fluía, ao mesmo tempo, não criava resistência à embriaguez, os sentidos se tornaram secundários, soltos, algo voava.

Alguém negou minha beleza, de forma sutil, natural, de forma gentil e inevitável. Me senti feliz, completa, realizei de forma palpável que todo o meu percurso até então se dava por outras fontes, outras virtudes. Cresci com isso sem perceber, outra liberdade. Desconhecia grande parte do público, muitos pareciam bem mais jovens do que eu, fosse por número ou impressão, mas gostei do meu espaço. Como se fosse um território habilmente reservado para mim, como um direito que se conquista e a moeda de troca é o tempo.

O tempo todo caminhava, era essa a impressão. Os banheiros estavam ou pareciam cheios, distribuía risadas com desenvoltura, conhecia alguém em um esbarrão e logo me tornava familiar, simpatizava com quem não simpatizaria em uma agradável cumplicidade. Estávamos vivos. Era isso que tínhamos em comum e parecia suficiente.


Kika Hamaoui é autora e roteirista, formada em Filosofia pela Puc-Rio. Publicou os livros "Dois-Mundos de Antônia", "Replexidão", "Teus Navios são Tuas Coragens", "Do Medo do Tempo e outros rugidos" e a história em quadrinhos "Pérola". É roteirista da Rede Globo e atualmente escreve o programa "Zorra". @kikahamaoui



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