Buscar

Olhe uma última vez as coisas belas

Atualizado: Jun 12

Viviana Ribeiro

Virgínia Woolf, por Carlota Cogliati.


Look thy last on all things lovely


Londres, 03 de setembro de 1939: Virginia e Leonard Woolf ligaram o rádio pela manhã. O ultimato da França e da Inglaterra para que a Alemanha desocupasse a Polônia em 24 horas estava para vencer. Eles esperavam o pronunciamento oficial de Winston Churchill, às 11:15h. Era tema de discórdia entre Leonard e Virginia a posição de que não havia mais tempo para acordos, e que a Inglaterra deveria intervir imediatamente em favor da Polônia pois, afinal, “se vencermos...” dizia Leonard. Virginia, por sua vez, bradava: “Se vencermos o quê? São sempre vocês a decidir. Nós [mulheres] como sempre, ficamos de fora”.


Um ano antes, em plena Conferência de Munique, Virginia estava na London Library pesquisando e escrevendo a biografia de seu amigo de longa data, o crítico de arte Roger Fry[1], morto em 1934. Um senhor de idade, funcionário da Library, aproximou-se e disse: “Dizem que teremos que usar máscaras.” “Você já tem uma?”, perguntou Virginia e ele respondeu: “Não, ainda não. Mas haverá guerra?” “Temo que sim, mas espero que não.” E o senhor continuou: “Moro em Putney, já colocaram sacos de areia na rua. Os livros daqui serão transferidos, mas se a bomba cair no palácio...” interrompeu-se, tristíssimo, e perguntou se poderia tirar o pó da mesa. Já sem concentração para continuar, Virginia foi até a National Gallery olhar os quadros que ela e Roger tanto amavam e se lembrou da frase do poeta Walter de la Mare “Look thy last on all things lovely”. A Europa estava em chamas e Virginia tinha a sensação de que nada mais seria como antes. Como poderia ser? E mais uma vez, atormentada pensou: quem é esse nós que decide se haverá guerra ou não? Não são as mulheres, pelo visto não são também os senhores idosos moradores de Putney, trabalhadores da London Library e, certamente, também não são os poetas.

Durante toda a década de 1930 até a sua morte, em 1941, Virginia Woolf viveu profundamente o impacto do entreguerras na Europa, assumindo uma posição pacifista radical e dedicou suas energias e atenções na formulação de uma tese igualmente radical e incompreendida na época[2], mas que ela via com clareza: a existência de uma relação intrínseca entre o fascismo, a misoginia e a guerra. Ora, se a lógica funesta é essa, como fundamos um nós antibelicista? Ela pensava que esse era o ponto de partida para pensar na fundação de um outro mundo possível. Seus últimos e principais ensaios e romances foram escritos sob a deterioração da atmosfera política: a ascensão de Führer; a adoção por Mussolini do título oficial de chefe de governo, duce do fascismo e fundador do império; a Guerra Civil Espanhola - na qual morreu seu sobrinho Julian Bell[3]; a invasão da China pelo Japão; a anexação da Áustria, com a submissão vergonhosa do autoritário Chanceler Kurt von Schushnigg por Hitler (VUILLARD, 2019); e o efetivo início da Segunda Guerra Mundial. Não há indícios de que Virginia Woolf soubesse da existência dos campos de concentração, não há nenhuma referência a eles em seus diários que desde 1930 são ocupados pelos acontecimentos que ruíam a Europa. Ela sentia e percebia que o que estava acontecendo não deixava espaço para o futuro. Enquanto concebia as obras do período – de 1930 a 1941 – escreve em seu diário: “Se a sensibilidade é ofendida e prejudicada de modo irreparável pela irrealidade da força, que relação poderemos ter com o outro?” (FUSINI, 2010, p. 323). Look thy last on all things lovely, não deixava de lembrar Virginia, enquanto pensava na fundação do novo nós.

Em 1932, aos 50 anos, Virginia Woolf tem a ambição de mais uma vez, reinventar sua literatura, seu modo de escrever, uma nova experimentação distinta d’As Ondas (1931), pois teria que conter a grande crise de seu tempo. Começou a escrever um texto que pretendia que fosse uma mistura de romance, ensaio, crônica, poesia, comentários, que “conteria tudo: sexo, instrução, vida cotidiana etc. E procederia como uma ágil camurça saltando precipícios, de 1880 até os seus dias” (FUSINI, 2010, p. 259). Junto a isso, a condição da mulher em uma sociedade patriarcal[4], o que, para Virginia, enlaçava toda problemática dos tempos sombrios. Neste mesmo ano aceitou o convite da princesa Elizabeth Bibesco, filha do ex-ministro H. H. Asquith (1908-1916), para ingressar no comitê de uma mostra antifascista organizado por Bibesco. Quando Virginia questionou a grande dama sobre a ausência de qualquer alusão à questão feminista, obteve como resposta que “não lhe parecia o caso de ocupar-se de problemas tão secundários, quando estavam em jogo questões de tal importância [como o posicionamento antifascista]” (FUSINI, 2010, p. 286). Virginia, então, lhe respondeu secamente: “vá dizer isso a Hitler”, e saiu batendo as portas para nunca mais voltar.


Viviana Ribeiro é professora e cofundadora do IPIA comunidade de pensamento. Doutoranda em Direito (PUC-Rio) e mestra em Filosofia (UFF).


Créditos da imagem:

Virgínia Woolf, por Carlota Cogliati.


Referências:

FUSINI, Nadia. Sou dona da minha alma: o segredo de Virginia Woolf. 2. ed. Tradução de Karina Jannini. São Paulo: Bertrand Brasil, 2010.

VUILLARD, Eric. A ordem do dia. São Paulo: Planeta, 2019.

WOOLF, Virgínia. Três guinéus. Tradução de Tomaz Tadeu. Belo Horizonte: Autêntica, 2019.


Notas:

[1] Roger Fry (1866-1934), crítico de arte responsável pela realização da primeira mostra pós-impressionista em Londres, levou de Paris 21 Cézanne, 37 Gauguin, 20 Van Gogh, além de Rouault, Derain, Picasso e Matisse. “Chamou a todos de pós-impressionistas, ainda que o título fosse impreciso” e, embora Fry esperasse alguma perturbação do público, nada era comparável ao que efetivamente ocorrera durante a exposição: “A multidão enfurecida invectivava: aqueles não eram quadros, nem mesmo uma criança, talvez apenas um louco, podia pintar daquele jeito. Houve quem cuspisse nas telas literalmente. […] Para Virginia foi importante ver aqueles quadros. Eram obras de artistas que tentavam definir uma forma não muito distante de sua busca: “O que são seis maçãs em um quadro!”, comentou enlevada diante das maçãs de Cézanne” (FUSINI, 2010, p. 78). [2] É no ensaio político Três guinéus (2019), o texto no qual Virginia Woolf apresenta a formulação sobre a relação intrínseca entre o fascismo, a misoginia e a guerra. O texto começou a ser escrito em 1932 e foi publicado apenas em junho de 1938. Após a publicação, as desconfianças de Virginia quanto à recepção do ensaio se confirmaram, a muitos o livro não agradou. Segundo a biógrafa italiana de Virginia, Nadia Fusini: “A verdade, segunda a autora, era que seu livro acabava com a festa de muita gente. E seu feminismo ofendia os amigos homens que pensavam tratar as mulheres como iguais, bem como as amigas mulheres, às quais em geral bastava a liberdade individual alcançada. […] O livro não agradou nem mesmo à Vita. Os amigos íntimos, de modo geral, nada disseram, o silêncio bastava” (FUSINI, 2010, p. 304). [3] Julian tinha 29 anos quando se alistou na Cruz Vermelha Britânica e 1 mês e 11 dias após ser enviado para Espanha, a ambulância que dirigia foi atingida por uma granada, em 18 de julho de 1937 (FUSINI, 2010, p. 295). [4] Tema abordado por Virginia Woolf em toda sua obra. #VirginiaWoolf #feminismo #literatura #WalterDeLaMare

153 visualizações

O uso não autorizado do conteúdo e imagem pertencentes ao IPIA configura violação de propriedade intelectual sujeita a penalidade.