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Os aromas de Helena

Atualizado: Jun 8

Julia Myara



Helen of Troy (1898), da pintora britânica Evelyn de Morgan



Helena acordou do seu sonho de infância, doce, inocente, alegre e feliz

Ao honrar Ártemis Órtia nas margens do rio Eurotas

Dançava como jovem impúbere pela chegada da primavera

Na destreza dos seus movimentos juvenis

Junto de suas irmãs,

Ritualizando e encantando, com sua vibrante beleza

O ritmo da natureza.

Mas Helena despertou com os seus próprios ritmos perdidos

Retirados e usurpados.

Foi violentamente tragada do seu sonho infantil.

Chacoalhadas pelos ombros, arrastada, sequestrada

Quando abriu seus olhos, levantou

E sentiu cheiro e vontade de comer laranjas

Aquecidas pelo sol – mornas e doces.

Um cheiro feliz.

Mas seu desejo era desejo de outro dia, de outra terra, outra idade

Outra Helena.

A estirpe dos monarcas de Ática terra haviam levado-a do seu lar.

Ela, segundo os homens, já não era mais criança.

Era mulher- e era bela.

Coisa que eles não podiam perdoar.

Mantida enlaçada na sua prisão de Jasmim

Helena cresceu rósea, dourada, madura mas lunar.

Ela desejou cheiro de terra funda e molhada

Com perfume de flores primaveris.

Ela, agora adulta e sequestrada,

Lembrava a própria senhora das flores.

Mas esquecem-se os homens,

que Helena, assim com Perséfone, é,

Ao mesmo tempo

Senhora das Flores e Rainha dos mortos.

O matador do touro sagrado

Da grande Deusa cretense não percebeu

Que nas sombras da princesa espartana crescia um desejo de cedro e rosas

Nas entranhas da terra Helena buscava pela firmeza do grande Atlas

Que é sustentáculo do imenso azul celeste

Sem deixar de exalar o cheiro das Rosas perfumadas.

Que para alguns lembra amor e paixão,

Mas que também carrega consigo o cheiro da morte.

Decidiu ela que percorreria os caminhos destinados a ela

Pelas três imortais sagradas

Com doçura, sensualidade e alegria ferina

Faria florescer, pelo chão onde seus pés tocasse,

Relva selvagem, ardente e hostil.

Suas flores teriam espinhos e sua voz doce derrubaria cidades.

Nas trilhas estelares guiada pelos Dióscuros Gêmeos,

Ela encontraria de volta seu caminho para mátria amada.

Pois por desejo e direito,

Sem espada empunhada,

Buscava a sua coroa dourada.

E todos renderam-se.

Dos jogos ferozes entre os homens travados

Príncipes, reis e heróis lutaram pela sua mão perfumada.

Mas a força se curvou frente a astúcia e a beleza,

E Helena foi, acima de todos, coroada.

De Gêrânia rósea era eleita e proclamada.

Divina e dourada, como a própria Afrodite

Helena, assim como a deusa, era estrangeira.

Seu peito enchia-se de éter divino, e não de ar.

A Rainha Helena não conseguia afugentar o sentimento

De que naquele mundo não deveria estar.

E que pertencia a outras terras.

Distantes, estranhas e cintilantes.

Quando Páris, com cheiro e cor de brilho oriental a ela se apresentou

Helena foi pelo odor de Mirra, Gengibre Benjoim conquistada.

Sentia cheiro de Deus, sentia cheiro de casa.

Os assustadores mares, enormes e salgados ela atravessou.

Levada em seu peito por desejo erótico de se aventurar

Comer, vestir, beber e cheirar

Helena não era lacônica, monástica nem austera.

Ela desejava a vida com seiva e suco dos céus e da terra

Queria beber ambrosia e néctar,

E celebrar sua vida de maneira eterna

Mas amor e guerra são amantes antigos

E rosas têm cheiro de primavera mas também de sepultura

No seu frasco encantando

Todos os aromas agora já estavam misturados.

Onde estava o cheiro da laranja?

Onde estava o aromar da Jasmim?

Até a terra encantada e as flores primaveris tinham se escondido

O cheiro do sal do mar

Do suor da guerra

Dos corpos dos homens

Se ergueram por dez anos

E seu perfume ficou perdido.

Seu novo reino, antes, quente, úmido e oriental

Tinha agora cheiro se sangue menstrual.

Tróia – a sepultura da Europa e da Ásia parecia uma floresta cortada.

Uma seiva derramada.

Mata devastada.

Ela andou nos prados antes belos

E cortou suas mãos no capim.

A carne abriu-se e revelou uma fenda de sangue,

Escuro e fecundo, que pingou sobre a terra.

A terra, de Helena se alimentou.

Mas a garganta doeu e cerrou.

Parecia que tinha sido cortada,

Rasgada pelo vento forte,

Pela revolta estrangulada,

Pela ira enclausurada.

No peito – e no fundo da garganta

Ela sentiu vontade de destruição,

Transformar tudo em verde gritante,

Claro, berrante, presente e violento.

O ácido cheiro do limão

O cheiro verde e cru do capim.

Num mar de capim limão

Todo o sustentáculo da terra-cedro

E toda a doçura das rosas flores

Se apagaram e sumiram.

Nem lavanda restou - foi lavada.

Não havia lilás calma e rósea tranquilidade.

Se era ela a destruidora de heróis, que seja

Pois seu destino assim estava traçado

Em fúria selvagem, lembrava-se:

Era flor e morte.

Amor e guerra.

Era sábia mas astuta.

Mortal mas divina.

De dez anos de guerra, pairou ela,

Como sombra, fantasma e trevas

Sobre sua mãe – a Terra.

E se do corpo dela sua mãe havia usado

Ela o entregaria de bom grado.

Sombra gigante, distante e lunar

O rosto terrível da mais bela de todas havia de se tornar

E sobre a terra o grande sacrifício esquecido derramar.

O sangue de gregos e troianos

Como libação sagrada, oferecer.

Gaia, antes seca, dura e explorada

Voltou a florescer

Sorvendo como vinho o sangue dos heróis.

Deusa da vida e da morte Helena percebeu-se ser

Pois seu corpo era o corpo Dela,

E as transformações se faziam nela,

E era Ela que ia todos os anos ao mundo dos mortos,

E voltava semeando e colhendo flores.

Reintegrado os homens ao ciclo da vida

Helena volta para mátria Esparta,

E se torna árvore.

Primeiro para ti, Helena, se lê

Teceremos uma guirlanda com as flores de lótus

Mais próximas a terra.

A lótus fogosa, macia e cheirosa

Nascida mais bela, da lama.

A colocaremos em uma árvore de Plátano,

Dessas grandes, belas e frondosas,

Que dá sombra, sonho da noite.

Derramaremos o azeite liquido de um frasco de prata

E o deixaremos gotejar sob o plátano.

O azeite umedece e retém o aroma.

Em sua casca vermelha e vibrante,

Escreveremos em minoico, não em dórico,

Para que apenas nós, mulheres, possamos te cultuar:

“Venere-me, pequena.

Sou forte, dura, terrosa, vermelha e oriental.

Sou canela,

A árvore de Helena".

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