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Por que desconsiderar o teor político feminista na escrita de Virgínia Woolf?

Viviana Ribeiro


Virginia Woolf (1931), de Jordan Peers

Por que o teor político feminista da produção escrita de Virginia Woolf foi um tema desconsiderado durante tanto tempo?


Em primeiro lugar, é preciso dizer que após a sua morte, em 1941, dois ou três trabalhos de pesquisa foram produzidos sobre seus romances e os especialistas (todos homens, evidentemente) consideravam que tudo já havia sido dito e entendido sobre sua extensa produção escrita – que reúne 20 romances, centenas de panfletos, ensaios, resenhas, 5 tomos de cartas e 5 tomos de diários.


Em 1960, os temas Virginia Woolf e feminismo eram assuntos “que não iam longe”, pensavam os professores doutores da época. Diziam: “Virginia era um animal apolítico [enunciado proposto por Leonard Woolf]. Era uma lady, não gostava de trabalhadores, nem de negros, nem de judeus. [...] Era uma esnobe e se orgulhava disso, uma autêntica britânica”, como nos informa seu biógrafo Herbert Marder, que seguiu com sua pesquisa de doutoramento à revelia da recomendação de seu orientador.


Até que, em 1972, aparece a biografia escrita por Quentin Bell, sobrinho de Virginia, e suas cartas e diários são publicados pela primeira vez – documentos que mostram uma Virginia até então totalmente ignorada pelo pensamento hegemônico detentor da “verdade”, criador dessa imagem de uma Virginia apolítica. O movimento feminista do período e críticas feministas passaram a olhar para produção de Virginia com outras lentes, percebendo-a como grande precursora. Porém uma segunda barreira se construía: tratava-se de um feminismo muito estranho.


Em segundo lugar, porque o feminismo de Virginia Woolf criticava a organização da luta das mulheres pelo direito ao voto partindo do pressuposto da igualdade entre os gêneros. O pensamento e a prática feministas de Virginia afirmavam e preservavam a diferença e, assim, apontavam o caminho para uma luta de mulheres muito mais longa e radical, que não poderia se esgotar na conquista de direitos: tratava-se antes de um combate decisivo com o Estado e a sociedade patriarcais, para fundação de uma nova sociedade com bases inteiramente distintas da lógica de exploração e de dominação. Em resumo, Virginia acreditava que ingressar na sociedade patriarcal em igualdade de direitos alterava muito pouco as condições materiais de existência da vida das mulheres. Não alterava em nada, por exemplo, a ideia da função materna como papel social principal e natural das mulheres e não modificava em nada as estruturas de poder hierárquico, nem a lógica autoritária que rege as relações micro e macropolíticas.


Em terceiro lugar, porque a tese apresentada no livro “Três guinéus” de 1938, que equiparava a sociedade patriarcal ao fascismo, foi muito mal compreendida e mal recebida na época, mesmo pelo seu ciclo círculo de amigos e amigas próximas e liberais. Pelos amigos, por se sentirem ofendidos e não enxergarem os hábitos patriarcais que cultivavam – culto às honrarias, às medalhas, aos símbolos de distinção e hierarquização sociais. Pelas amigas, por acharem que alcançar a liberdade individual era suficiente como solução do problema. Diziam que a relação que Virginia traçou entre patriarcalismo e fascismo era “totalmente inadequada” e expressava uma “reação instintiva [leia-se, emotiva e não racional] do feminino em oposição ao masculino” (Quentin Bell).


Esta má recepção produziu, com efeito, o esquecimento deste panfleto político que traz o argumento mais bem formatado que Virginia tematizou e desenvolveu em toda sua obra ensaística e ficcional.


Em quarto lugar, a afirmação da diferença no pensamento e na prática feministas de Virginia Woolf era entendida como separatista, como se a escritora advogasse pelo resgate de uma sociedade constituída apenas por mulheres, tal como a Ilha de Lesbos e a sociedade das Amazonas, configurando, portanto, uma proposta idealista e irrealizável na prática.


Nada mais equivocado do que isso, uma vez que, no pensamento de Virginia Woolf, a afirmação da diferença está conectada com a ideia da potência do fora – no sentido de que a proposta de alteração radical da sociedade patriarcal não pode ser operada por dentro desta mesma sociedade, pois entrar nela implica ceder às regras do seu jogo. Essa mudança estrutural profunda só poderia vir, então, da sociedade que está de fora: a Sociedade das Outsiders.



Viviana Ribeiro é professora e cofundadora do IPIA – Comunidade de Pensamento. Doutoranda em Direito (PUC-Rio) e mestra em Filosofia (UFF). Graduada em Direito pelo IBMEC - RJ. Pesquisadora egressa do Grupo de Estudos Comparados de Literatura e Cultura (GECOMLIC/UFRJ), coordenado pelos prof. Dr. Eduardo Coutinho e prof.ª Dra. Monica Amim. Integrante do Grupo de Trabalho Deleuze da Associação Nacional de Pós-graduação em Filosofia (GT- Deleuze/ANPOF). Integrante do Ciclo de Leitura Espinosa, PUC-Rio.

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