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Sagradas e profanas – histórias de quando Deus era Mulher

Julia Myara


Sara Kali, padroeira dos ciganos.

Nos últimos 8 anos, pelo menos, venho estudando, de uma maneira ou de outra, as muitas histórias das mulheres. Porém, já de início de conversa, preciso fazer uma ressalva. Quando digo “as muitas histórias das mulheres” e não “a história das mulheres” o faço por um motivo: se algumas linhas clássicas da história pretendem apresentar uma verdade desapaixonada, ontológica, em si, de como as coisas aconteceram, esse não é o meu objetivo. É quase clichê, porém verdadeiro, falar que as nossas narrativas históricas são contadas a partir da perspectiva dos vencedores, ou dos “grandes homens”. Assim, nós, mulheres, não sendo homens e nem vencedoras da história, não fazemos parte dessas narrativas, ou a parte que nos cabe não nos contempla ou agrada pois é contada, justamente, por aqueles que nos dominaram e pela cultura que nos subjuga.

Quando digo que venho me dedicando as histórias das mulheres o faço pois incluo na minha pesquisa, não como um enfeite e adereço qualquer, mas como fundamentação necessária e estrutural desse resgate, as narrativas sagradas, os contos de fadas e as histórias mítico-religiosas. Se por um lado, uma história positivista e racionalista, com todos os seus méritos e pretensões científicas, nos narra uma história desafetada, desapaixonada e, em muitos sentidos, ascética, as narrativas sagradas e mítico religiosas nos oferecem uma vasta variedade de contradições, polifonias, multivocalidades e perspectivas, todas coexistindo em um caos que tento, mais ou menos, organizar. E são essas as narrativas apaixonadas e afetadas que revelam, muitas vezes, aquilo que a história como ciência falha em revelar: os exilados, os excluídos, os dominados, os afetados e apaixonados que agiram e viveram nesse mundo errático, vibrante e violentado. Essa não é a história oficial e esse mundo não é um mundo de “grandes homens”.

Recorrer as narrativas sagradas, nesse contexto, não é um ato de fé. Antes disso é, entender a dimensão espiritual da humanidade, tanto nas suas crenças, quanto na sua produção cultural e organização social e política, como essencial para um resgate da nossa condição. O fenômeno religioso, tal como compreendo aqui, presente nas histórias de todas as civilizações e antes delas, se deu para a humanidade de diversas maneiras. Povos múltiplos expressaram o sagrado nesse mundo -muitas vezes considerado profano, como um exemplo das virtudes necessárias para a sobrevivência, para a vida comunitária e para a manutenção e desenvolvimento da jornada individual e coletiva.

O ocidente herdou uma intensa história que entrelaça em uma tessitura inseparável o fenômeno religioso, social, histórico e político. Olhar para o mundo e tentar compreendê-lo a partir de uma separação artificial instaurada pelo fenômeno do esclarecimento é se condenar a uma leitura não só fragmentada, mas viciada pelo olhar dominante. Não observar as disputas de narrativas é se aliar a narrativa vencedora.

Ao observar a narrativa sagrada que orienta majoritariamente o mundo ocidental, podemos perceber que o Deus das religiões abraâmicas é o pater família, que orienta, pune e recompensa suas criações e se comporta, para utilizar um termo emprestado de Gustav Jung, como o arquétipo do grande pai universal. Porém, essa não é a única narrativa possível e o Deus dos homens e da civilização dos homens é um Deus jovem. Antes de Deus ser transformado em homem, ele foi mulher, em uma cultura tão antiga que remonta ao neolítico, o desenvolvimento da agricultura, ao que chamamos de “paz primitiva” e por um longo tempo, nas regiões de clima temperado desse planeta, a Deusa reinou soberana.

Nesta série de textos “Sagradas e profanas – histórias de quando Deus era Mulher”, que pretendo lançar periodicamente a partir de agora, tentarei reconstruir, a partir dos meus estudos e aulas, a história da Deusa neolítica, a cultura que permitiu o seu desenvolvimento, conceitos como matriarcado e matrilinearidade, revolução neolítica, paz primitiva, as mulheres nas narrativas sumérias, babilônicas, canaanitas, bíblicas etc. Entenderemos como a religião da Deusa foi abalada pelas conquistas de povos caçadores e pastores. Por fim, chegaremos as múltiplas faces da Deusa na cultura grega, comumente considerada um dos pilares do ocidente. Nossa jornada nos levará a entender como a Grande e Única Deusa tornou-se – Deusas, demônios, bruxas e feiticeiras.

Julia Myara é professora de Filosofia e cofundadora do IPIA comunidade de pensamento.


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