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VIVIANA RIBEIRO: Sobre o direito à educação e ao trabalho


Em algum 15 de outubro, o escritor, professor e jornalista Fabricio Carpinejar publicou uma das definições mais pertinentes e bonitas sobre o que é um Professor, transcrita parcialmente abaixo:

Um professor sempre será melhor do que o Google

Porque o professor não dá uma informação, conta histórias

Porque o professor funciona mesmo sem wi-fi, mesmo sem luz, mesmo no temporal

Porque o professor não facilita a busca, exercita a memória

Porque o professor não cria dependência, mas possibilita amizades

Porque o professor pode mudar o destino de um assunto, voltar atrás, recomeçar de novo, dependendo das necessidades da turma

Porque o professor não realiza só o que você deseja, vai além com detalhes e comparações

Porque o professor lê a sua alma quando levanta o dedo para a pergunta, não apenas recebe uma dúvida

Porque o professor também se importa com aquilo que não entendeu mais do que com aquilo que quis perguntar.

Porque o professor escolhe falar do que ama, você não está apenas tendo uma aula sobre um conteúdo, e sim testemunhando uma história de amor

A professora Viviana Ribeiro costuma reproduzir a última frase com uma revisão aumentada. Diz que uma aula é uma história de amor da professora com as amigas-pensadoras que compõem as bibliografias, e é também uma história de amor com suas alunas e alunos. Mas esse texto não é sobre a história dessa história de amor múltipla. Esse texto é sobre as condições atuais de impossibilidade/possibilidade de continuidade do ofício educacional no momento Brasil que vivemos hoje.

Dia 10/03/2020, há 394 dias, a Organização Mundial da Saúde declarou a infecção pelo Covid-19 como provocada por um vírus altamente contagioso, letal e mundial. Como nenhum país do mundo estava (e ainda não está) preparado para enfrentá-la por meio de um sistema de saúde público, amplo e eficaz; medidas de distanciamento social se fizeram (e ainda se fazem) necessárias para prevenção do contágio, para uma boa gestão do sistema de saúde — público e privado —, e, ao mesmo tempo, para a preparação e ampliação deste mesmo sistema para tratamento dos doentes e produção de vacina.

Muito embora o modo de produção e vida capitalista, desde os anos 1970, esteja se impondo na forma do trabalho imaterial e virtual, fato é que muitas são as profissões, ofícios e atividades que têm em sua natureza constitutiva a reunião, o estar junto, o encontro sensível — como são os casos das atividades culturais/artísticas e da atividade educacional. Contextualizando a necessidade do distanciamento social, bem como os ofícios cujo coração é a reunião — num país tomado desde 2016 por um projeto de desgovernança, desmantelamento e, ao fim e ao cabo, de morte—, todos nós brasileiros fomos pegos de surpresa quando nos vimos diante da necessidade de enfrentar uma situação para a qual não estávamos absolutamente preparados; e pior: nas mãos de um grupo político não comprometido com a adoção de medidas urgentes e imediatas que funcionariam tanto na atenuação da crise quanto no caminho que nos livraria dela.

No campo da Educação, a necessidade de continuação, sem interrupção, do trabalho — pelas instituições públicas — encontrou (e ainda encontra) barreiras imediatas relativas à acessibilidade. O maior contingente de alunos, assim como muitos professores, não possuíam (e muitos ainda não possuem) os instrumentos técnicos necessários para continuação do exercício do direito ao trabalho e à educação. A tecnologia, então, passa a se apresentar socialmente, sem mascaramento, como mais um marcador da exploração de classe, não apenas no que diz respeito ao privilégio da detenção, por uma minoria, dos bens de consumo tecnológicos, mas também como privilégio da detenção, por uma minoria, do direito à educação, do lado dos alunos, e uma captura do campo do trabalho, do lado dos professores. Para os professores, especialmente aqueles que não estão vinculados ao sistema público, já impedidos de antemão de cumprirem a sua função pública, social e educacional, adotar o regime de trabalho virtual nunca se apresentou como uma opção. Sempre se tratou de uma ação que precisava ser realizada no nó do impossível: ou é isso ou a atividade para. Ou é isso ou o exercício do ofício não se realiza.

Passados 390 dias da declaração da OMS, chegamos hoje a uma situação social-econômica-política-afetiva densamente mais trágica do que o estado de um ano atrás. Rodeados e atravessados por mortes e violências intensificadas contra mulheres, população negra e crianças, como podemos continuar a falar e pensar no trabalho de construção de um novo mundo por intermédio da educação? E, ao mesmo tempo, como podemos não falar e não pensar? É sobre isto que o filósofo Gilles Deleuze não cansou de pensar e escrever: a ação política é sempre da ordem do involuntário e da necessidade. Ela sempre se apresenta diante da impossibilidade de não agir. Ela sempre se apresenta como necessidade de abertura para a vida em meio a impossibilidade. É exatamente isso que se impõe para os educadores no nosso agora.

Foi em meio a tudo isso, inserido nesse nó ainda mais apertado do impossível, que o Curso Formação Feminista e Antirracista – Política e Direito foi gestado: nascerá dia 13/04/2021. Resultado de um bom encontro entre as professoras Viviana Ribeiro e Rachel Serodio, que se (re)conheceram exatamente dentro de uma sala de aula onde a magia das histórias de amor não para de acontecer, mesmo no e diante do impossível. Conheceram-se e reconheceram-se como companheiras da luta pela construção de uma nova sociedade. Cada uma na sua trincheira — Viviana, como professora, Rachel, diariamente na linha de frente da defesa dos direitos das mulheres no sistema de justiça misógino, classista e racista brasileiro —, encontraram-se exatamente num momento em que ambas perceberam um aspecto do problema da luta pela transformação social de uma forma muito nítida: o nosso sistema educacional e de formação precisa ser mudado radicalmente, e isso precisa ser feito desde já. Viviana e Rachel uniram suas trajetórias, suas experiências, as urgências de suas lutas e começaram a conceber e preparar o Curso Formação, não como “cavalheiros solitários e salvadores dessa cruzada do agora”, não como oportunistas, não como pessoas de boa vontade, mas como uma tentativa de experimentação e colocação no concreto de uma maneira de realizar o trabalho educacional; como uma maneira de colocar em prática o que cada uma defende nas suas trincheiras: que uma formação feminista e antirracista implica necessariamente em uma transformação não apenas na nossa sensibilidade, não apenas no nosso intelecto, mas também, e principalmente, nas nossas práticas profissionais. Se a Formação não serve para transformar profundamente nossa atuação no campo social, sendo o campo do trabalho, uma atuação fundamental de todos nós, então essa formação não serve para nada.

Esse Curso nasce agora, apesar do impossível, com a esperança na composição de outros e novos bons encontros, como tentativa de abertura de um possível na luta coletiva, comprometida com a transformação desta sociedade que é a nossa, no nosso tempo de agora.

Link da inscrição : https://bit.ly/feministantirracistamatriculas

Como citar este texto:

RIBEIRO, Viviana. Sobre o direito à educação e ao trabalho final? In: IPIA - Comunidade de Pensamento. Blog do IPIA. Rio de Janeiro, 24 mar. 2021. https://www.ipiacomunidade.com.br/post/sobre-o-direito-à-educação-e-ao-trabalho-final


VIVIANA RIBEIRO é professora e cofundadora do IPIA - Comunidade de Pensamento. Doutoranda pelo Programa de Pós Graduação em Direito da PUC-RIO. Mestra em Filosofia pelo Programa de Pós Graduação em Filosofia da Universidade Federal Fluminense (PFI/UFF). Possui graduação em Direito pelo IBMEC. Pesquisadora egressa do Grupo de Estudos Comparados de Literatura e Cultura (GECOMLIC/UFRJ), coordenado pelos prof. Dr. Eduardo Coutinho e prof.ª Dra. Monica Amim. Integrante do Grupo de Trabalho Deleuze da Associação Nacional de Pós-graduação em Filosofia (GT- Deleuze/ANPOF). Integrante do Ciclo de Leitura Spinoza & a Filosofia (PUC-Rio).



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