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Uma tentativa - Parte 1

Kika Hamaoui



Os bairros foram se dissolvendo na minha cabeça, ás vezes, em uma atividade qualquer, me vinha um nome solto e fazia um esforço para me recordar de suas ruas, seus habitantes, seus forasteiros, desconhecia o olhar dos que trabalhavam naquele espaço, suas passagens subterrâneas para escapar no metrô lotado. Minha janela, aos poucos, foi se tornando uma toca, um portal desabitado até mesmo por mim que permitia acessar um pedaço de céu que, esse sim, talvez fosse somente meu, como uma peça de quebra-cabeça que escapa e mesmo frágil, sozinha, consegue transformar uma multidão em uma massa incompleta. No início, havia várias ligações. Amigos, cobranças, familiares. Todos pareciam estar comigo. Anoitecia e amanhecia chorando, acordava no meio da noite e procurava um pedaço de mim que possivelmente havia desaparecido, uma mão, um braço, um pedaço sozinho do coração, olhos saltitantes, fios de cabelo, malditos andróginos, maldito Platão. Quando nos conhecemos, éramos um. Possivelmente, o amor tenha vindo daí. Dias e noites, todos construídos por uma ânsia incessante de nossos corpos, a solidão da pele era enlouquecedora, ainda que dividíssemos o mesmo espaço. Um simples encaixe entre os corpos e todos os paraísos faziam sentido, paraísos nada etéreos, absurdamente táteis, férteis e convictos de sua materialidade. No intervalo, quando descansávamos a cabeça no peito um do outro, deve ter surgido qualquer coisa como o amor. Os anos, claro, se passaram, como haveria de ser. Uma rotina suave e deliciosa era a nossa, Eduardo era absolutamente gentil, um homem de palavras doces, afazeres simples, amizades lúcidas. Passávamos noites inteiras junto a brisa do outono, aproveitando o vento fresco para tomar vinho. Mesmo depois de tanto tempo, continuávamos conversando tanto quanto fazíamos antes, recebendo os amigos em casa, alternando domingos nas casas das famílias, a dele, um pequeno apartamento em Copacabana, com um cheiro antigo e bom, um descanso aconchegante próximo a Prado Junior, onde seus pais moravam e a minha em Laranjeiras, próximo ao Largo do Machado, onde minha mãe vivia com seus gatos com nome de gente, Oliveira e Manuel. Tínhamos o hábito de levar a sobremesa do almoço e passar a tarde sem conflitos. Até que um dia, a rotina se sobrepôs como um bloco rígido. Como um labirinto agradável onde era impossível escapar. Tudo foi se tornando impermeável, nossos movimentos pareciam escritos, descritos, repetitivos em uma história sem final. Já devia fazer dois ou três anos que Eduardo não sentia mais atração por mim. Não por mim, completamente, como pessoa que carrega voz, tom, personalidade. Por mim como corpo, massa terrestre, ímã, festa, necessidade. Ao contrário do que muitos tentavam me questionar, Eduardo não tinha outra mulher. Sei disso como se sabe todas as coisas. Não havia uma transferência, ele simplesmente havia deixado de sentir. Meu corpo era agora um objeto de conforto, como um edredom, uma antiga almofada, um travesseiro quente que se carrega desde sempre. Um lugar para descansar a cabeça durante a noite, sentir o cheiro de algo palpável, uma ausência de mistério, um filme que se assiste por muitas e muitas vezes e não há mais surpresa ou movimentos, tudo não passa de uma sequência acostumada de imagens. Todas as vezes que havíamos transado desde então, era por iniciativa minha. Ele retribuía, com carinho, até o momento em que eu me mostrasse satisfeita e depois parava. Respirava ofegante e sozinha. Com o tempo, parei de procurá-lo para ver se surgia em si qualquer anseio. Foram poucas vezes. Todas com uma necessidade absolutamente ordenada, como quem faz uma lista de compras e esquece de anotar um pão, uma beterraba. Meus dias foram se tornando tão suaves que flutuavam da realidade, evitava me olhar no espelho, desviava dos homens na rua com medo de que minha aparência lhes causasse repulsa. Todos os elogios, por algum motivo, me pareciam falsos. Sentia que sabiam qualquer coisa sobre mim que justificasse uma piedade e agradecia pela educação, pela bondade. De vez em quando, flagrava Eduardo trocando vídeos pornográficos com os amigos. Todos de mulheres sozinhas, com corpos inalcançáveis, extremamente malhados, com artifícios que simplesmente não me interessavam. Não havia interação, nenhuma espécie de tara, fetiche, tipo de sexo que seria alcançável. Apenas uma mulher, um desejo em um corpo, em uma tela, em um lugar que já havia deixado de ser meu. Há muito tempo. Pragmaticamente falando, não havia nada de errado com o meu corpo. Mas eu não consegui mais encará-lo. Ficava sem roupa por pouquíssimo tempo, assim que saía do banho já me vestia, antes mesmo de sair do banheiro. Sentia medo de que o retrato cru de mim mesma lhe despertasse repulsa. Adormecia chorando, as lágrimas escorrendo, pensava o que exatamente havia lhe causado esse afastamento de mim. Seria algum gesto, desses impensados, em que se arruma o cabelo, mastiga uma comida, uma maneira de falar de algo, quando por exemplo vemos alguém muito empolgado com algum discurso que não nos interessa, um cheiro, seria meu cheiro que havia mudado e agora lhe causava algum nojo, meus sons, ao acordar, na hora de dormir, os sons do sexo, o sono, eu não sabia. Estava a um passo do abismo quando decidi me separar. Todos os dias a ideia passava pela minha cabeça acompanhada de culpa e lágrimas, tratava Eduardo bem, com o carinho que lhe pertencia e ele retribuía. Diferente da esfera sexual, nossa convivência era indiscutivelmente boa, ele cozinhava, gostava de propor programas novos, como ver uma exposição ou fazer um passeio de barco, assistíamos filmes e passávamos horas discutindo, bebíamos até perder os sentidos e gargalhávamos até incomodar os vizinhos. Depois, por fim, dormíamos. Minha falta de coragem, de tato, para tocar no assunto era imensa, mais do que isso, me causava um constrangimento profundo, não pelo fato em si, mas por fazer de mim um desejo em cobrança. Como se a ausência de desejo dele fosse um item de contrato que não estava sendo cumprido e mesmo se cumprisse, que diferença faria? Detestaria ainda mais me ver neste papel de ação forçada, desejo por gentileza. Esconder meus pensamentos era muito mais doloroso do que esconder uma traição, por exemplo. Mas não realizei nenhum tipo de traição, não sentia vontade. Tudo que queria era ficar um pouco sozinha. E respirar. A separação foi extremamente dolorosa, como havia de ser. Eduardo não entendia o motivo, sofria. Eu sofria em dobro, por não saber falar. Joguei indiretas, falei suavemente, dizia que a relação estava diferente, que não tínhamos mais o ritmo de antes, ele dizia que era normal, que todo casamento era assim, que tudo se concerta. Nem tudo, não sei. Juntar as coisas, procurar um novo apartamento, conviver com uma pessoa sabendo que ela não é mais sua garantia de que tudo estará bem, que não haverá colo, discussões, conforto, que logo mais ele estará com outra, vivendo experiências novas, com um corpo que, esse sim lhe satisfaz, e que irá comentar com os amigos o quanto está bem, o quanto se diverte, o quanto essa nova mulher é melhor do que eu, mais interessante, mais atraente, mais segura, compreensiva. Enquanto eu, certamente, estarei sozinha, buscando a mim, me lamentando de ter tomado a decisão errada, escutando dos mais próximos que era só conversar e tudo ficaria bem. Não ficaria, eu sabia disso. Tive que vê-lo de longe e de perto ainda por muitos dias, o que antes era uma casa repleta de aconchego agora me cercava como uma prisão ilusória, com textura de sonho, os sons na rua pareciam vindo de um filme insuportável, as risadas estouravam meus ouvidos em uma angústia sem fim de modo que era preciso sair para verificá-las, olhar nos olhos de quem ria, saber se era mesmo possível ter qualquer tipo de sentimento palpável ou tudo não passava de um teatro, uma encenação construída, sabe-se lá por quem, habilmente por mim.


- Vai sair? – Ele perguntou.


- Preciso respirar. – Falei antes de bater a porta.




Kika Hamaoui é autora e roteirista, formada em Filosofia pela Puc-Rio. Publicou os livros "Dois-Mundos de Antônia", "Replexidão", "Teus Navios são Tuas Coragens", "Do Medo do Tempo e outros rugidos" e a história em quadrinhos "Pérola". É roteirista da Rede Globo e atualmente escreve o programa "Zorra". @kikahamaoui


Imagem: Early Sunday Morning, de Edward Hopper.


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