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Uma tentativa - Parte 2

Kika Hamaoui


Muchacha en la ventana (1925), de Salvador Dalí.

Depois de algumas semanas consegui alugar um pequeno apartamento na Glória, subindo a Cândido Mendes. Sentia muita falta de Botafogo, meu antigo bairro. Ruas perfeitas para andar e se perder, entrar na Travessa, olhar os livros, tomar um café lá de cima e acompanhar o movimento das pessoas buscando romances para dar de presente, depois sair, tomar outro café na cafeteria ao lado, cruzar com amigos que saem do metrô, passar todas as noites pela Nelson Mandela olhando para os bares buscando rostos conhecidos e sempre encontrar, se refugiar no cinema Estação aos domingos e todos os outros dias em que as coisas não iam bem ou iam bem demais. Viver em Botafogo era uma experiência cinematográfica, um respiro de bares, cafés, livrarias, o único ponto do Rio que parecia ter alcançado o equilíbrio exato dos prazeres cariocas. Meu apartamento na Glória estava vazio, um pequeno quarto e sala com uma geladeira, um fogão usado, um sofá antigo, minha cama nova e uma televisão. Tinha um cheiro de lugar que não era meu, volta e meia me assustava com a minha própria presença naquele ambiente. Saí para dar uma volta, conhecer a noite. O bar da esquina estava cheio de pessoas próprias do bairro, eram simpáticas, menos blasés e mais prepotentes do que as de Botafogo, mais duras em suas vivências, mais pertinentes em suas afrontas. Seguindo na direção da Lapa, dividi a calçada com os vendedores do shopping chão, todo tipo de quinquilharia, cabeças de bonecas, CDs estragados, tomadas sem fio, roupas pela metade. As travestis assumiam seus postos, ao contrário de Copacabana, onde havia se tornado difícil de encontrá-las. Eu passava despercebida, comprei um cigarro, acendi, parei em uma pequena barraca e comprei algumas frutas, meia dúzia de bananas, uma caixa de caqui e um pequeno mamão papaia. Voltei, passei novamente pelo bar da esquina, pedi um chope, tomei num só gole encostada no balcão e subi a rua. Adormeci mais suave, as frutas aguardavam na sacola. Sonhei com um antigo namorado, não era Eduardo. Os sons se distanciaram de tal forma que se tornaram agradáveis, adormecer com as vozes que vinham dos bares me dava a sensação de não estar mais tão sozinha. Acordei bem. Pela primeira vez consegui dormir por completo. Desde que me separei, despertava no meio da noite com o coração disparando, acreditando que estava a um passo da morte. Dessa vez foi diferente, dormi com leveza, acordei em um lugar estranho, mas confortável, as paredes pareciam calmamente absorver o meu cheiro, de repente adotaria um gato. Peguei a sacola, cortei o mamão, joguei os caroços fora, comi absorvendo o sol da manhã, como um pequeno barco que sobrevive a uma tempestade, o velho e o mar depois da escuridão. Resolvi ligar para minha mãe, de alguma forma gostaria de constatar para alguém do mundo externo que eu estava bem. Tinha conseguido dormir, comer, acordar. Já estava me habituando ao novo bairro, de repente daria mais uma volta naquele dia mesmo, precisava passar no supermercado. Liguei.


- Oi, mãe.


- Luiza. Caiu da cama?


- Acho que sim. Estou me acostumando ainda. Mas está tudo bem.


- Que bom. O prédio é bom? Como é a vizinhança?


- É bom. Tudo bem. Tudo normal. Acho que vou no supermercado daqui há pouco.


- Tá bom, filha. Posso ir aí conhecer?


- Hoje não, mãe. Ainda está uma bagunça. Mais para o final da semana, pode ser?


- Pode. Estou indo para ginástica agora, na volta a gente se fala.


- Tá bom, mãe. Beijo.


Estava tudo bem. Tudo certo. Liguei a televisão. Estava passando o jornal. Fazia tempo que não assistia. Me trazia uma sensação boa, de ordem, de casa. De gente que faz a comida enquanto espera os filhos chegarem da escola, de filhos que chegam da escola com fome, de manhã que começa, de café, de tarefas confortavelmente cotidianas. Ouvi tudo, de passagem. De repente meu foco auditivo e visual se voltou instantaneamente com muita precisão, como se agora somente aquela televisão existisse, como se só ela reproduzisse qualquer vínculo com a realidade. Meu coração acelerou e com ele, senti que meu corpo deveria responder ao estímulo e se movimentar o mais rápido possível. Olhei para o lado e alguma coisa no hábito me escapou, pensei que veria Eduardo, ajudaria a descascar as batatas, colocaria a mesa enquanto ele terminava de cozinhar, mas não havia ninguém além de mim.

Corri para o supermercado. Estava mais cheio do que o normal. Senti como se fosse cair, como se estivesse com uma doença desconhecida, a proximidade das pessoas me assustava, escutava qualquer ruído como uma ameaça, coloquei, aleatoriamente, itens no carrinho, empurrei até o caixa, vacilei, conquistei espaço, segurei firme em algo que me escapava.


- Próximo.


Evitei falar, como se isso fosse me proteger de alguma forma. Passei tudo com pressa, a caixa me olhava com desdém, como se meu desespero fosse risível e ralentava o processo. Minhas compras eram completamente desconexas, bananas, uma bandeja de carne, gengibre, desinfetante. Colocava tudo na sacola o mais rápido possível.


- Débito ou crédito? – Perguntou.


- Débito. – Respondi já colocando o cartão na máquina.


Peguei as compras, atravessei a rua, andei rapidamente até meu novo prédio, o peso das sacolas me incomodava, estava tonta, me vinha uma fraqueza que era frequentemente combatida por um resto de energia já gasto, passei pela banca de jornal, o jornaleiro, um senhor que se acomodava atrás das balas, mexia no celular, parecia tranquilo. Cumprimentei o porteiro, entrei no elevador antes que alguém pudesse me alcançar, cheguei no apartamento, parecia menos acolhedor do que antes, larguei as sacolas na bancada, estava ofegante. Tomei um copo d´água, lembrei das chaves, tinham ficado do lado de fora. Abri a porta, estavam mesmo lá, tranquei, anotei mentalmente algumas tarefas, entrei novamente no apartamento e não saí de lá pelos próximos dias.

Ficar sozinha nunca me pareceu uma ideia agradável. Fui direto da casa dos meus pais para a casa de Eduardo, nos casamos, o apartamento era dele. Sempre pensava que se tivesse que morar sozinha, dividiria a casa com alguém, alguma amiga, até mesmo com um desconhecido. Mas àquela altura, minha prioridade era sair rápido da casa de Eduardo, não queria voltar a morar com a minha mãe, ter que acordar todos os dias respondendo perguntas, ser interrompida enquanto choro. Sem pensar muito, respondendo a uma ação que não questiona a mente, liguei para Eduardo.


- Alô. – Atendeu.


- Está vendo TV? – Perguntei.


- Não, por que?


- Tá acontecendo um monte de coisa estranha.


- Sim, Luiza. Sempre acontece.


- Mas parece que as coisas estão mais estranhas. Coisas que a gente pensava que não fosse acontecer, sabe? A gente vai vivendo e não tem noção das coisas que acontecem. No prédio, no bairro, na cidade, no país. No mundo inteiro. São tantas notícias e não é nem dez por cento do que está acontecendo. Quem seleciona? Quem escolhe o que é mais ou menos importante? Isso tudo tem me enlouquecido.


- Luiza. Você está precisando de alguma coisa?


Não sei onde estava com a cabeça quando liguei para ele, mas a falta de Eduardo começou a me desesperar. Parecia injusto que depois de tanto tempo a gente se perdesse por completo. Por um instante, me pareceu justo viver da forma que vivíamos, me pareceu natural. Esse era o caminho de qualquer relação, o que importava se ele não sentia mais desejo por mim? Mais cedo ou mais tarde isso aconteceria novamente, de uma forma ou de outra, em uma próxima relação. Talvez tenha sido uma fuga de uma coisa ruim para algo pior, mas as suas reações me absorveram profundamente. Por mais que houvesse uma moderação nas minhas palavras, o clima de instabilidade e incerteza era enorme. Lavei o que tinha comprado no mercado, improvisei um almoço e comi sem vontade. Entardecia e decidi ligar novamente para a minha mãe. Já estava em casa, tentou amenizar as coisas como sempre fazia.


- Vai passar rápido, você vai ver.


Não consegui acreditar. Tentei ler, mas era impossível. Troquei mensagens com alguns amigos e todos pareciam ocupados, era uma tarefa árdua encontrar algum tipo de calma que não fosse artificial. Quando finalmente anoiteceu, as luzes acesas do apartamento me ofuscaram. Sentia como se estivesse suspensa em uma bolha no espaço, em um lugar que não existia. Levei um susto com a minha presença, apaguei as luzes como que para afastar os monstros. Depois de muito tempo, adormeci.


Kika Hamaoui é autora e roteirista, formada em Filosofia pela Puc-Rio. Publicou os livros "Dois-Mundos de Antônia", "Replexidão", "Teus Navios são Tuas Coragens", "Do Medo do Tempo e outros rugidos" e a história em quadrinhos "Pérola". É roteirista da Rede Globo e atualmente escreve o programa "Zorra". @kikahamaoui

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