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Uma tentativa - Parte 4

Kika Hamaoui


O Almoço dos Barqueiros (1881), de Renoir.

Ela falava com muita empolgação sobre séries, filmes que passavam no cinema, peças teatrais de destaque e eu olhava tudo aquilo como uma realidade ao mesmo tempo nova e distante. Me dei conta de que a separação com Eduardo levou muito mais tempo do que de fato parecia, mal conseguia me lembrar do último livro que tinha lido, da última vez que tinha ido ao cinema. O volume de tempo não devia ser grande, o que me impressionava era a força que a memória fazia. Enquanto ele assistia aos filmes, ria internamente de momentos cômicos, vibrava com as conquistas mais heroicas dos personagens, eu me estendia em corpo, completa e preenchida de matéria que acompanhava um sorriso sem saber do que ria ou uma lágrima que já caía por costume.


Todos os amigos de Isabela eram vibrantes, falavam alto em um tom claro e preciso, tinham uma desenvoltura corporal expansiva e discutiam assuntos mais acessíveis do que os acadêmicos, debatiam política com muita paixão e clareza, permitiam dúvidas, questionavam com orgulho as incertezas. Me senti retraída, não por eles, mas por não saber exatamente a hora de colocar a cerveja no copo, o momento certo de ir ao banheiro, como se estivesse em uma prova de anti-etiqueta, me adequando não a eles, mas a nova realidade que se apresentava. Quando falavam comigo, todas as minhas respostas pareciam soar vagas demais e sentia um medo repentino de parecer desinteressante, um solo maltratado que tentou dar frutos, mas não resistiu.


Com o tempo e com a cerveja, fui respondendo aos estímulos com mais naturalidade. Um de seus amigos me falava sobre chão, sobre certezas, parecia um jovem ator com certa experiência, que transmite jovialidade, mas não necessariamente a tem.


- Para o dançarino, tudo é chão. O tecido é o chão, o trapézio, até as barras de pole dance. Só não tem chão quando salta de paraquedas, aí não tem jeito. – Falava com convicção e um pouco disperso, fumando um cigarro e olhando o ambiente.


- O céu passa a ser o chão. – Respondi com algum sorriso.


A conversa parou no meio, um de seus amigos beijou o seu pescoço, ele encolheu o corpo, depois cresceu novamente, levantou rápido, puxou o rapaz. Falavam de tudo muitíssimo animados, sempre, como se cada instante fosse último e importante. Isabela me puxou.


- Vem no banheiro comigo.


Vi meu reflexo no espelho, subindo as escadas estreitas do bar desleixado. Ao lado dos anúncios de cerveja, aparecia meu rosto. Estava bem, gostei de me ver assim, com uma maquiagem suave e um pouco embriagada. Fechou a porta do banheiro e perguntou:


- Está gostando?


- Estou. Quer dizer, é estranho. Mas estou. – Respondi.


- Viu aquela menina? – Perguntou enquanto lavava as mãos.


- Qual?


- A loirinha. Está rolando um clima, acho que vou ficar com ela.


- Não vi. Mas dou força. - Falei enquanto descíamos as escadas.


A rua estava cheia. Tinha lotado e eu não percebi, só naquela hora, voltando para o bar que consegui escutar a multidão. Todos pareciam jovens, possuídos por uma energia extasiante que eu mais observava do que conhecia. Os olhares se empurravam, algumas pessoas emitiam gritos acompanhados de risadas, os próprios garçons participavam de uma dança inconsciente e bem planejada colocando as garrafas nas mesas, tirando as tampas, anotando a quantidade em um papel, como um movimente esperado que ninguém percebe.


Isabela conversava com a menina loira, pareciam em uma sintonia inebriante, desbravando uma a outra como se desbrava lugares, novos países. Elas combinavam. Fiquei feliz pela sensação. Pedi um cigarro para um desconhecido, que estendeu sem olhar para mim. A fumaça trazia uma leve intuição de sonho, caminhar pela cidade é sempre um bom final para um filme, pensei nisso enquanto entrava no metrô.


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Kika Hamaoui é autora e roteirista, formada em Filosofia pela Puc-Rio. Publicou os livros "Dois-Mundos de Antônia", "Replexidão", "Teus Navios são Tuas Coragens", "Do Medo do Tempo e outros rugidos" e a história em quadrinhos "Pérola". É roteirista da Rede Globo e atualmente escreve o programa "Zorra". @kikahamaoui

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