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Uma tentativa - Parte 3

Kika Hamaoui


As duas namoradas (1894), de Toulouse-Lautrec

Um sonho recorrente e espaçado me perseguia há anos. Eu andava na rua, em lugares conhecidos ou não, fazia coisas desconexas, a rua volta e meia estava cheia, volta e meia estava vazia, ás vezes era noite, outras, era dia. Quando olhava para os meus pés, estava descalça. Toda vez que sonhava, tinha certeza, é abandono. Algo me deixava lá, sozinha e sem sapatos, prestes a correr de volta para casa sem que ninguém percebesse e ainda assim, me mantinha parada, em dúvida, suspensa no tempo até despertar. Dessa vez, supreendentemente, uma voz me soprou no sonho, isso não é abandono, é liberdade. E talvez eu a ame e a tema na mesma medida.


Eu já andei descalça na rua uma vez. Foi voltando de uma festa no Copacabana Palace, uma festa de graça, claro, bebemos não sei como, eu fui de salto e nunca fui exatamente acostumada a andar assim. Mas o fato é que bebemos e minha amiga ficou bêbada, muito bêbada e ela tem um e oitenta de altura e eu tinha que levar ela a pé até a minha casa. Não vi outra solução, tirei o sapato e fui andando, á noite, madrugada, talvez, rua vazia. Olhava para o chão, segurava a amiga, ela ria, meu pé deve estar imundo, pensava, atravessei a rua, levamos uns minutos e chegamos. Foi essa vez e nunca mais.


Liberdade. Acho que foi isso que mais me encantou na vida adulta. Eu não era assim, um ser que lamenta no lugar. Pelo contrário, lá no início dela, a liberdade tinha uma densidade que não sei explicar, mas era como se entrasse mais ar no pulmão. Liberdade tinha gosto de vinho, de sonho, de gritos, liberdade tinha um cheiro bom de fumaça, se é que isso é possível, como era maravilhoso conhecer a liberdade. A noite sempre foi uma porta de entrada, para mim, era quase um fetiche.


E agora ela estava lá, crua, nua, se estendendo em uma cama para mim. Mas quando me aproximava, se torna monstruosa, repleta de garras e armas desconhecidas. Sentada diante do precipício, oscilando entre o voo e a queda. Decidi ligar para uma amiga da faculdade, saber como ela estava, o que andava fazendo. Era uma artista livre que muito me admirava e aproveitamos os louros do início da vida adulta com bastante ousadia. Subíamos colinas para fumar maconha na porta de grã-finos que provavelmente faziam a mesma coisa dentro de casa, passeávamos pelos saraus de poesia da cidade, sempre embriagadas balbuciando Baudelaire como um mantra respeitado, é preciso estar sempre embriagado, de vinho, virtude ou poesia.


- Não bebo faz tempo, outro dia tomei um chope num gole só. E foi isso. Sem prazer, sem nada. Minha vida está mais para uma tragédia. Poesia? Não consigo enxergar. Acho que cheguei no fundo do poço, só vejo virtude.


- Você precisa voltar para o mundo. Me passa seu endereço. Passo aí ás oito. - Falou decidida.


Desliguei o telefone. Minhas roupas estavam todas jogadas, no espelho, via meu cabelo bagunçado, um olhar perdido e olheiras fundas. Não me reconheci. Decidi tomar um banho, o relógio marcava dez para sete e o mundo me esperava como um planeta desabitado.


Uma tentativa - Parte 1

Uma tentativa - Parte 2


Kika Hamaoui é autora e roteirista, formada em Filosofia pela Puc-Rio. Publicou os livros "Dois-Mundos de Antônia", "Replexidão", "Teus Navios são Tuas Coragens", "Do Medo do Tempo e outros rugidos" e a história em quadrinhos "Pérola". É roteirista da Rede Globo e atualmente escreve o programa "Zorra". @kikahamaoui


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