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YASMIN NIGRI: A potência explosiva do fragmento em Jacques Rancière

Dar a ver aquilo que não pode ser visto é próprio da explosividade do fragmento que ganha autonomia no regime estético justamente por essa capacidade isto ocorre porque o olhar traz em si a possibilidade de revitalizar o que está mortificado.



O fragmento expresso na imagem nuclear do torso é o ponto de partida determinante e indissociável à constituição da experiência sensível no regime estético de Rancière. Em sua obra Aisthesis, o regime estético ocupa o lugar daquilo que convencionalmente chamamos de modernidade artística; dessa maneira, Rancière consegue dissociar-se dos demais pensadores no campo da estética cujo foco reside na modernidade artística, especialmente Clement Greenberg. Contudo, tal como apontado em aula pelo professor Luiz Camillo Osório, podemos manter um vínculo entre o regime estético e o período moderno desde que nos libertemos de interpretações hegemônicas da modernidade.


Fazendo jus ao espírito crítico e libertário, Rancière diferencia-se de importantes pensadores e críticos da estética moderna pela torção revolucionária de sua releitura da terceira crítica kantiana. Seu esforço de atualização consiste em inverter o debate sobre o juízo estético, transformando o problema do gosto numa solução. Rancière lida com este problema atribuindo ao próprio sujeito que dá determinado ajuizamento em detrimento de outro, que não só julgue, mas que também se coloque à prova, compartilhando e esclarecendo as causas e os motivos de seu próprio gosto às demais pessoas. Como dito acima, o filósofo contrapõe-se a Greenberg, que em sua obra tardia intitulada “Estética doméstica” busca atualizar a estética kantiana defendendo a não particularidade da subjetividade, ou seja, uma subjetividade que não se pretende isolada em um eu particular, com vistas a tornar a experiência crítica algo da ordem de uma subjetividade objetiva.


O parágrafo acima cumpre sua função no que tange à seguinte assertiva: dado o fim das poéticas normativas e não havendo mais um modo correto de apreciar os mesmos temas presenciamos uma série de mudanças na maneira de pensar o estatuto da representação. Para Rancière, nosso autor em discussão, o importante passa a ser o crescente borramento das fronteiras.


Outro dado importante do regime estético é que ele também representa um modo específico de ser da experiência sensível. Rancière nota na passagem de uma experiência sensível a outra uma mudança de estratégia nos modos de produção e recepção da arte capaz de fazer frente ao contínuo sequestro das sensibilidades. Seu livro Aisthesis pode ser compreendido como um panorama composto de quatorze cenas ou capítulos em que se pode rastrear a transição de um regime ou modo de sentir e perceber o mundo a outro, sem com isso virar refém da narrativa da “crise da arte” ou do “esgotamento da arte”. A primeira cena/capítulo marca o gesto inaugural dessa passagem, ela consiste de uma escultura em que a parte e o todo não estão em equilíbrio. Transgressora, esta poética torna o fragmento algo a ser visto e revisto.


A questão de maior urgência a ser desdobrada diz respeito ao que está contido como potência explosiva nesse fragmento. De que maneira o fragmento expressa sua relação com o todo? Seria o resíduo capaz de fazer da lembrança um prazer?


Abused and mutilated to the utmost, and without head, arms, or legs, as this statue is, it shows itself even now to those who have the power to look deeply into the secrets of art with all the splendor of its former beauty. The artist has presented in this Hercules a lofty ideal of a body elevated above nature (Aisthesis: Scenes from the Aesthetic Regime of Art, English Edition, por Jacques Ranciere (Autor), Zakir Paul (Tradutor), p.1).

Dar a ver aquilo que não pode ser visto é próprio da explosividade do fragmento que ganha autonomia no regime estético justamente por essa capacidade isto ocorre porque o olhar traz em si a possibilidade de revitalizar o que está mortificado. Dessa maneira, o espectador transforma-se em ator e ganha destaque na disputa por oposições não hierarquizadas em um regime estético caracterizado pela desidentificação ao invés de identificação, pelo deslocamento ao invés do pertencimento.


Rancière vê no torso mutilado de Hércules um gesto de rebelião, identificando-o como ponto de partida flagrante do regime estético, dialogando nomeadamente com aquele a quem deve a inspiração pela sua teoria, Johann Joachin Winckelmann, importante arqueólogo e historiador de arte especialista no período helenista. É neste gesto de rebelião, a saber, deslocar a experiência do olhar, que reside a importância da nova tradução que Rancière nos dá do que significou a mudança no registro da experiência sensível a partir da modernidade artística.


Como citar este artigo:


NIGRI, Yasmin. A potência explosiva do fragmento em Jacques Rancière. In: IPIA - Comunidade de Pensamento. Blog do IPIA. Rio de Janeiro, 9 mar. 2020. Disponível em: https://www.ipiacomunidade.com.br/post/yasmin-nigri-a-potência-explosiva-do-fragmento-em-jacques-rancière. Acesso em: 2 jul. 1986 [colocar a sua data de acesso ao texto].


YASMIN NIGRI é poeta, artista visual e crítica literária. Seu livro de estreia, Bigornas (Ed.34, 2018), foi finalista do prêmio Rio de Literatura 2019 na categoria poesia. Atualmente é pesquisadora do CNPQ e cursa o Doutorado em Filosofia na área de Estética e Filosofia da Arte na PUC-Rio. Mestra em Filosofia pela Universidade Federal Fluminense (UFF). É colaboradora da Quatro cinco um: a revista dos livros.

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