YASMIN NIGRI VOANDO NAS BIGORNAS

Fazer uma resenha do livro “Bigornas” em forma de poema

Talvez a Nigri fizesse e gostasse desse modo de fazer resenha

                                                                                         [de livro de poemas
Ainda que eu diga que os poemas dela concretizam a aptidão máxima da arte que é a criação de afectos e perceptos, como diria Deleuze
 

[Digo “Ainda que”] Porque ela, a Nigri, pensa [também] com Adorno
E Deleuze e Adorno têm lá suas pequenas e grandes divergências no pensamento

[embora combatam os porcos nazistas com o mesmo afinco]

 

[A Nigri...sempre fico em dúvida sobre como me referir às mulheres nos textos...dado que foi estabelecido pela linguagem dominante que, quando citamos os homens, usamos o sobrenome e quando citamos as mulheres, usamos o primeiro nome [Clarice, Virginia, Ana, Hilda, Chimamanda, Susan, Simone, Angélica, Elena, Carolina, Conceição...]

daí, se a gente fala Nigri, corre o risco do leitor automatizar na porra da cabeça “livro de poemas dO...” se a gente fala o primeiro nome, continua usando a mesma linguagem que convencionou que quando nos referimos às mulheres, citamos o primeiro nome e quando nos referimos aos homens, citamos o sobrenome

 

Yasmin Nigri, então, para que não tenha dúvidas sobre quem escreve

                                                                     [importa quem escreve? Ah tá, senta lá, Foucault!]

 

Os poemas de “Bigornas” dialogam com a história das mulheres.

Com a história dos poemas.

Com as-os escritoras-escritores preferidas-preferidos da Yasmin [Nigri]

                                                                     [só se conversa daquele jeito com as-os autoras-autores que a gente ama muito]

Dialoga conosco, as-os leitoras-leitores. Dialoga não, dá uns trancos, sabe?

 

 

Fissurando Lacan:

 

O limite da função histórica do sujeito:

- Planetas decidindo sobre vidas

 

 

 

Um verso que merece o seguinte lembrete nas margens: “Come chocolates, pequena; Come chocolates! Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates”

 

Kit Kat?

– Ninguém tá te pagando para fazer merchan, Yasmin

 

 

Um verso delícia:

 

Sabe o que cairia bem agora

Você de um prédio

 

 

Uma meiguice:

 

É mais fácil um carvalho transpirar

Do que eu te escrever um poema de amor

 

 

Projeto dos [golpistas]-machos-velhos-brancos-heteronormativos-escravocratas-latifundiários-misóginos-e-brochas para o Brasil:

 

como é mesmo o olhar dos motoristas

de caminhão pipa

 

que não têm água em casa

que não tem água em casa

 

 

Antídoto para [a tragédia] da academia:

 

Citação

o que se coloca entre aspas

quando tudo já foi dito

é a insistência

em nomear nossos fracassos

 

 

 

De Glauber para Benjamin:
 

O mínimo que se espera de um leitor é que ele tenha um amor especial pelos esquecidos e os que deixam de escrever
 

 

Poema para Ana C.

 

FRANK O’HARA

 

 

Sentimento de Clarice:
                                                             

o cigarro cai dos dedos

enquanto adormeço

apetecia ser lentamente devorada 

pelo incêndio de um fogo consolador

desperto

 

 

 

Para lembrar das preciosidades:

 

BIGORNAS

 

 

 

                                        Não há perguntas. Selvagem.

                               o silêncio cresce, difícil. 

 

                                                                                 (Orides Fontela, "Esfinge")

 

 

Da potência política da literatura:
 

estamos pisando sobre os restos
única maneira de não esquecer

 

Se a literatura é uma das armas de combate que auxilia na criação e manutenção da memória coletiva, é porque se faz mesmo nesse lugar da ambiguidade: escreve-se para esquecer e para lembrar os outros[1], o mundo, o futuro
Lembrar para que não se repita.

Lembrar para que não se repita.

Lembrar para que não se repita.


RUA DE ONTEM

ou

Como era mesmo que você me olhava quando a gente ainda se via?

 

Para que não repitam conosco. Comigo. Com você. Com Yasmin. Letícia. Ana. Joana. Joaquina. Maria. Eduarda. Tatiane. Claudia. Cristina – casos singulares como marca da história
 

Como era mesmo que você me olhava quando a gente ainda se via?


Depois que li seu livro, Yasmin, escrevi UM MANIFESTO, organizei um motim e terminei um artigo para uma revista

                                                                      [e aqui e agora, uma resenha em forma de poema]

                                                                     

                                                                      [olha a potência de um livro, bicho!]

 

“Tuas Bigornas me forçaram [e, de certa forma, organizaram] um monte de pensamentos que ainda não tinham saído para o papel!”

 

Tem melhor elogio que esse, gata?

 

__________

[1] Citação indireta de Beatriz Sarlo, em Paisagens Imaginárias. [para cumprir algum protocolo e porque a Beatriz Sarlo merece]  

 

 

 

 

 

 

[1] Citação indireta de Beatriz Sarlo, em Paisagens Imaginárias  

 

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