Há uma vida que teima - anotações e conexões sobre "Insubmissas lágrimas de mulheres"

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“Desde que aprendeu a andar, fugiu. Amarraram aos seus tornozelos uma pesada corrente, e acorrentada cresceu, mas mil vezes saltou as muralhas de madeira e mil vezes foi apanhada pelos cães nas montanhas do Haiti.

 

Com ferro em brasa, marcaram a flor de lis na sua face. Puseram-lhe uma coleira de ferro e argolas de ferro e foi trancada num engenho, e ela afundou os dedos entre cilindros trituradores de cana e depois, a dentadas, arrancou as bandagens. 

 

Tornaram a acorrenta-la, e agora ela agoniza cantando maldições. 

Zabeth, essa mulher de ferro, pertence à senhora Galbaud du Fort que mora em Nantes. [1772 – Léogane – Zabeth]

(Eduardo Galeano, Memórias do fogo, p. 325 e 326)

 

Insubmissas lágrimas de mulheres é um livro de relatos inventados de uma Conceição Evaristo ouvinte-criadora-escrivinhadeira. Em uma das histórias, Conceição diz de si mesma: sou uma ouvidora de histórias de minhas semelhantes. Em “Insubmissas lágrimas de mulheres”, tudo foi vivido e tudo foi inventado. E tudo contribui para o não-esquecimento. E para resistência.

 

Há muitas formas de resistir. Sobreviver, talvez, seja a mais imediata e às vezes, a única possível. Em situações extremas, onde tudo leva e aspira a aniquilação, não morrer é resistir. 

 

Há notícias da realização de 800 casamentos em campos de concentração durante o nazismo. No espaço onde tudo leva e aspira a aniquilação, casar é resistir. 

 

Negros escravizados também casavam-se nas senzalas. E davam a seus filhos os nomes de seus ancestrais. Refazer laços familiares onde tudo leva e aspira a aniquilação, é resistir.

 

“Mulheres, raça e classe”, de Angela Davis traz inúmeras histórias de não apaziguamento: 

 

[1855] Uma jovem chamada Ann Wood comandou a fuga de um grande grupo de meninos e meninas, com armas. Após uma troca de tiros com captores de escravizados, dois meninos morreram e o restante, 250, conseguiu fugir.

 

[1856] Margaret Garner: escravizada, fugiu com seu marido e quatro filhos. Foram encontrados e quando estavam prestes a serem capturados, Margaret matou a própria filha, tentou matar os outros três e a si mesma. Implorou para ser julgada por assassinato: “Irei cantando para forca em vez de voltar para a escravidão”. A história de Margaret Garner inspirou o livro “Amada” de Toni Morrison.

 

Milla Granson: Em uma fazenda, em Louisiana, comandava uma escola noturna, dando aulas das onze da noite às duas horas da manhã, de maneira que conseguiu formar centenas de pessoas. Aprendeu a ler e escrever com os filhos daquele que a escravizava. Milla ensinava doze pessoas de cada vez e essas que já sabiam eram dispensadas com a missão de transmitir seu conhecimento aos demais. Aprender a ler e escrever é resistir.

 

Harriet Tubman: conduziu mais de trezentas pessoas pelas rotas secretas (underground Railroad) e pontos de parada clandestinos para chegar ao Canadá ou ao México, contando com ajuda de abolicionistas. As rotas não eram nem subterrâneas, nem férreas. Harriet era uma condutora – orientava as pessoas e indicava caminhos.

 

[1832] Prudence Crandall: jovem professora branca aceitou a primeira menina negra – Sarah Harris Fayerweather – filha de um negro liberto, em sua escola em Connecticut. Os pais dos outros alunos se manifestaram contra o ingresso da menina Sarah, porém Prudence manteve sua decisão. Esse fato ocasionou a saída em massa de crianças brancas. A partir de 1833 a escola de Prudence se dedicou a oferecer estudos para meninas negras e sofreu todo tipo de represálias. Lojistas se recusaram a vender material escolar, o médico local se recusou a atender os estudantes negros doentes, o farmacêutico se recusou a vender remédios, os transportes eram negados. O prédio da escola foi atacado, a água envenenada com fezes de animais e a escola foi impedida de conseguir água em outro lugar.  Em maio de 1833 foi aprovada uma lei que que proibia escolas de lecionarem para alunos negros sem a autorização do Município. Prudence foi presa, mas como a atuação de advogados abolicionistas, logo foi solta e o caso encerrado, sem condenação à escola. Diante da decisão da justiça, a população ficou ainda mais enfurecida chegando ao ponto de atear fogo na escola que continuou a funcionar até setembro de 1834 quando Prudence decidiu fechá-la para segurança dos alunos. 

 

[Brasil, 1880]: Maria Firmina dos Reis: primeira romancista negra do Brasil. Fundou em Maçaricó, uma aldeia no Maranhão, uma escola mista, pública e gratuita. Funcionou por apenas três anos, em razão da oposição do povoado.

 

“Insubmissas lágrimas de mulheres” se conecta a essas histórias. A essas mulheres. Natalina Soledad, a mulher que escolheu o próprio nome. Shirley Paixão, sem arrependimentos nem compaixão quase matou o marido quando este estuprava Seni, menina de quem Shirley se tornou mãe. Maria do Rosário, raptada aos sete anos e após 35, reencontra sua irmã. Sobreviventes, ela e eles, desde sempre. Há uma força que não finda.

 

“Há uma vida que teima em cada um de nós”, escreve lá pelas tantas Conceição. Nas histórias que ouve, penso que é isso que procura. Essa vida que teima. Mulheres que a partir de seus corpos, conceberam seus inúmeros renascimentos e persistem vivendo. “Insubmissas lágrimas de mulheres” traz pequenas histórias de resistência. De mulheres que persistem, insubmissas, na existência. 

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