Diálogo entre mulheres

 

O que é escrever como mulher?

 

Ana: faz sentido falar em literatura de mulher?

 

Capitu só é culpada porque a história foi escrita por Bentinho.

 

Elena: é preciso agir como costureiras e criar outras vestes para as mães.

 

Quem poderá criar outras vestes para as mães? A literatura canônica, poderá? Poderia?

 

Sylvia: As mulheres escritoras são raras e o fato de serem mulheres conta.

 

Vale qualquer mulher? Margaret. Margaret Thatcher vale? Vale?

 

Conceição: O meu projeto de escrita é levar à cena do texto, protagonistas negros, principalmente mulheres. Principalmente colocar essas personagens de uma outra maneira, inclusive como um contradiscurso ao que aparece na literatura canônica em relação às mulheres negras.

 

Capitu traiu Bentinho?

 

Noemi: literatura feminina. Gostaria que esse termo desaparecesse e, é claro, ficássemos apenas com “literatura”.

 

Elena: Emma, em Madame Bovary, diz para filha “você é feia”. Queria saber se eu seria capaz de colocar na boca de minhas personagens uma frase como essa.  

 

Luisa: literatura feminina. Acho uma subdivisão tão útil quanto “escritores de cabelo castanho” ou “escritores com miopia”

 

Ana: o problema é que quem fala em literatura de mulher pressupõe algo sobre o que é a literatura, algo sobre o que é ser mulher e algo sobre o que é a mulher quando escreve.

 

Chimamanda: quando você chega na América você se torna negro.

Martha: Você já ouviu falar de literatura masculina? Já ouviu algum resenhista dizer que O complexo de Portnoy, de Philip Roth, em que o narrador fala de sexo, masturbação, mais sexo e masturbação, é um exemplo fidedigno de literatura masculina?

 

O problema é que o termo “literatura feminina” marca um preconceito e uma depreciação.

 

Virginia: O que pode uma mulher opinar para evitar a guerra? se as mulheres não são presidentes, portanto não integram o executivo? Se não estão não conselhos, portanto não podem discutir sobre políticas internacionais? Se não estão no sistema financeiro, portanto não decidem sobre o dinheiro?

 

Elena: Houve uma fase em que planejei escrever sobre a futura belíssima Helena de Tróia como uma menina feiosa, cheia de terrores animais e esmagada pelo fulgor da mãe, Leda.

 

Carol: falar em literatura feminina às vezes pode funcionar como uma política de afirmação identitária.

 

Zadie escreveu um épico contemporâneo de 520 páginas aos 21 anos. ninguém leu.

 

Martha: Já ouviu alguém dizer que O cheiro do ralo, de Lourenço Mutarelli, em que o protagonista se apaixona por uma BUNDA (com caixa alta), é outro belo exemplo de literatura masculina? 

 

Angélica: Queria escrever um livro que pensasse o que é ser mulher. Não havia esse livro. Eu queria ler um poema sobre aborto. Não havia esse poema.

 

Ana: A ideia de procurar uma poesia feminina é uma ideia de homens, a manifestação em alguns críticos de um complexo de superioridade masculina. Precisamos abandoná-la.

 

Já viu alguém perguntando para algum homem como é que um homem escreve?

 

Falar em literatura feminina coloca, a literatura, como um outro gênero que se opõe ou se destaca em relação a Literatura – feita por homens.

 

Gil: minha porção mulher que até então se resguardara.

 

Gil é mulher?

 

Na minha biblioteca de 1.357 livros. não tem 300 livros escritos por mulheres.

 

Gilles: O que importa, no ato da escrita, é o devir. É preciso devir mulher. Mesmo as mulheres precisam devir mulher.

 

Na biblioteca de uma feminista, não tem nem 300 livros escritos por mulheres.

 

Gilles é mulher?

 

Sylvia: Não é bem mulher, é porção mulher.

 

Se a Ana tivesse vivido mais um pouco, ela chegaria nesse lance de devir. devir mulher.

 

Há algo intrínseco ao texto que possa nos fazer dizer: isso foi escrito, pensado, criado por uma mulher?

 

Carolina: escreve: fome.

 

Dos 300 livros da biblioteca de uma feminista, dentre os 1.405 livros, nem cinquenta são de negras.

 

Qual sentido de atribuir um sexo ao texto?

 

Chimamanda: é preciso sair do lugar da história única.

 

Há uma outra história a ser escrita. E outros mundos a serem fundados.

 

Virginia: Foram os homens que disseram que moda é um assunto menor. e guerra é um assunto maior. e foram os homens que atribuíram a si mesmos a possibilidade de falar sobre guerras.

 

Victor: O escritor funda mundos, no mundo.

 

Conceição: A minha condição de mulher negra na sociedade brasileira, sem sombra de dúvida, contamina a minha escrita.

 

Literatura escrita por mulher é um contradiscurso em relação ao que aparece na literatura canônica?

 

Harriet no seu romance, “A cabana do Pai Tomás”, romantizou a imagem da negra escrava, talvez para que a causa da abolição da escravidão se tornasse sensível para as mulheres brancas. e livres.

 

Elena: receio ter aprendido a escrever devorando sobretudo a escrita de homens e reproduzindo-a continuamente.

 

Virginia: com quem iríamos aprender se as estantes que nos antecederam eram de escritos de homens?

 

Virginia: Shakespeare seria possível se não viessem antes deles Homero, Virgílio, Cícero, Ovídeo?

 

Virginia: Quantos textos apócrifos foram escritos por mulheres que morreram queimadas?

 

Silvia: E se “O Capital” tivesse sido escrito por uma mulher?

 

Ana: escrita de mulher, uma charada sem resposta.

 

Literatura escrita por mulher é um contradiscurso em relação ao que aparece na literatura canônica.

 

Conceição: A escrita apazigua um pouco a dor. não tudo.

 

 

 

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